Dos escritos de Agostinho

DEUS É A VIDA DE TUA ALMA

“Tua alma morre perdendo a sua vida. Tua alma é a vida do teu corpo, e Deus é a vida de tua alma. Do mesmo modo que o corpo morre quando perde a sua alma, que é sua vida, assim a alma morre quando perde a Deus, que é sua vida. Certamente, a alma é imortal, e de tal modo é imortal, que vive mesmo estando morta. Aquilo que disse o Apóstolo da viúva que vivia em deleites pode-se dizer também da alma que tem perdido o seu Deus: que vivendo está morta”.

(Com. Ev. de João, 47, 8)

segunda-feira, 2 de abril de 2012

20 lições para conhecer a Santo Agostinho

 

16.- A ORDEM AGOSTINIANA NA HISTÓRIA

(1518 -1785: Máximo esplendor)

1.- EXTENSÃO

As consequências da reforma protestante iniciada por Lutero não demoraram em serem sentidas em toda a Ordem. Lutero foi um religioso Agostiniano da Congregação de Observância de Saxonia. Sua personalidade e obras tem sido muito discutidas, sofrendo as mais duras críticas e recolhendo os mais cálidos louvores, conforme se tratasse de historiadores católicos ou protestantes. Hoje as posições mais moderadas de uma e outra parte encontram-se mais perto um dos outros sem ter chegado ainda a um encontro final. Numa coisa coincidem: nos grandes talentos dos que ele estava dotado. Seus méritos a respeito da língua alemã não sofrem comparação com os de ninguém. A respeito à Reforma, ninguém nega que ele foi sincero, que o fez foi movido por um autêntico amor à Igreja, ainda desde a postura católica não se pode negar que ultrapassou os limites de uma justa crítica, sobretudo no final de seus dias. Com isso causou um dano imenso à mesma Igreja que desejava defender e à vida religiosa em particular. Sem dúvida ele foi o iniciador da divisão na Igreja. Convêm não esquecer, não obstante, que sua obra teria sido em vão, se não houvesse encontrado as circunstâncias favoráveis.

Alguns Agostinianos seguiram Lutero no abandono da Ordem e da Igreja Católica, sobretudo na Alemanha, ainda que não exclusivamente, pois sua influência chegou também aos conventos da França, Países Baixos e Itália. As províncias alemãs ficaram muito debilitadas, contribuindo para isso os poderes civis influenciados pelas circunstâncias religiosas.

A Ordem experimentou percas também na Hungria e Inglaterra. As províncias agostinianas daquelas nações desapareceram no mesmo século por causas diferentes. Na Hungria tiveram eco as ideias luteranas; mas a causa fundamental é a invasão dos turcos e na guerra civil entre os aspirantes ao trono. Na Inglaterra desapareceu pelas medidas tomadas por Enrique VIII, a partir do momento da sua separação da Igreja Católica. Só se salvaram alguns conventos da Irlanda, que deram origem em 1581 à Província Irlandesa.

A pesar das dolorosas perdidas, a Ordem resistiu a mais grave crise de sua história. Quase a o mesmo tempo se iniciava um ressurgir glorioso que faz deste período o mais brilhante da própria historia. Graças aos Superiores Gerais, de primeira categoria, entre os que sobressai Jerônimo Seripando de quem falaremos mais a frente.

Também o número de províncias e congregações alcança neste período seu número mais alto. Muitas daquelas se dividem dando origem a outras novas. Tendo como exemplo a Espanha, neste período existem a de Castela ou antiga de Espanha; a de Andaluzia, surgida em 1581 da anterior; a já antiga de Aragão e Catalunha. Em 1650, também da de Castela nascia a das Ilhas Canárias, além da de Portugal. Espanha que se tinha conservado fora do luteranismo estava vivendo uma época do esplendor religioso do qual participou a Ordem. Só assim pode-se explicar a enorme labor missionária realizada em América e no Extremo Oriente. Dela e das províncias que ali surgiram falaremos no apartado dedicado às missões.

Se o período anterior foi o das Congregações de Observância, o presente é o das Congregações dos Descalços. Seu número não se limita às da Espanha e Itália. Outras nasceram na França (1596), na Colômbia (1604) e em Portugal. A Congregação dos Recoletos de Espanha estendeu-se a América, Filipinas e Japão; a de Áustria, ao império austríaco.

No total possuía a Ordem na primeira parte deste período 27 províncias, 10 congregações com um número aproximado de 800 casas. O número de religiosos era ao início de uns 8000, que depois aumentaram a 12000. No final do período o número de províncias tinha ascendido a 43, as congregações a 13 e o de religiosos a 20000.

 

2.- ESTUDOS

Como em outros aspectos também neste o presente período foi o mais frutífero e gloriosos da Ordem.

Se no ressurgir da Ordem Seripando deu um grande impulso, nos estudos sua influência não foi menor. A obra de Seripando em prol dos estudos não se limitou a Ordem, mas estendeu-se à Igreja inteira. Desde a tribuna do Concílio de Trento no qual participou como Delegado do Papa advogou por uma autêntica formação humanística, filosófica e teológica dos sacerdotes. Ele foi um personagem de primeiríssima categoria neste campo. Sem dúvida é um dos maiores teólogos da Ordem em todos os tempos e, também, o mais célebre teólogo do Concílio de Trento.

Entre os cultivadores da ciência eclesiástica são muitos os que merecem ser destacados. Para evitar multiplicar nomes mencionaremos somente os mais importantes. Por ordem cronológica, Egídio de Viterbo (+1532) que fez o primeiro discurso do Concílio de Latrão. “Não só sobressaiu como poeta, orador, filósofo e teólogo, mas também como historiógrafo e bom conhecedor das línguas orientais”. Dionísio Vázquez (+1539) levou a cabo “na literatura religiosa, singularmente na do púlpito, uma revolução semelhante à que produziu um século antes São Vicente Ferrer”. Santo Tomás de Vilanova (+1555) cujos sermões são de grande beleza e riqueza, quem se adiantou em muitos aspectos ao Concílio de Trento, como foi na ideia de fundar seminários. Onofrio Panvinio (+1568) ao que poderíamos chamar o pai do estudo da antiguidade cristã. Alonso Gutiérrez da Vera Cruz (+ 1584) no México, “uma das figuras mais destacadas da história mexicana: defensor dos direitos dos índios, autor de importantes livros e tratados, fundador de centros de cultura para os índios, de colégios e bibliotecas, primeiro professor de Sagrada Escritura e de Teologia Tomista na recentemente fundada universidade de México”. Frei Luís de Leon (+1591): “príncipe da lírica espanhola, fino conhecedor dos clássicos greco-latinos e familiarizado com os Santos Padres, Frei Luís de Leon foi, sobretudo um apaixonado estudioso e genial intérprete da Bíblia, fonte principal de seus melhores livros”.

Outros teólogos de importância foram Bartolomeu de Usigem (+1532) que tinha sido professor de Lutero e João Hoffmeister (+1547), dois autores que se opuseram com vigor ao heresiarca; Cristóvão de Padua e Lourenço de Vilavicêncio. Entre os autores ascéticos e místicos, o Beato Afonso de Orozco, o Pe. Agostinho Antolínez, Santo Tomás de Vilanova, Pedro Malon de Echade com sua célebre obra A Conversão da Madalena, o português Tomé de Jesus, Luís Montoya; além de Frei Luís de Leon com seus Nomes de Cristouma cume da literatura religiosa de Ocidente”. Bartolomeu dos Rios impulsor da devoção mariana, etc.

Como filósofos podem se destacar Afonso Gutiérrez da Vera Cruz e Diogo de Zúñiga. Entre os historiadores além do já citado Onofrio Panvinio, João González de Mendoza quem na sua História das Coisas mais notáveis do Reino da China descobriu para o Ocidente aquele misterioso império. Tomás de Herrera foi historiador da Ordem. Na Espanha não pode ser esquecido o Pe. Enrique Florez que compus sua monumental obra conhecida como Espanha Sagrada. Ângelo Rocca foi o fundador da conhecida Biblioteca Angélica de Roma, a primeira aberta ao publico na Itália e confiscada à Ordem pelas autoridades do estado. André de Urdaneta era, a juízo de Filipe II, o melhor cosmógrafo se sua época. Na corte do mesmo Rei era médico Agostinho Farfán.

De época mais tardia, mas dentro deste período, são os grandes nomes da escola agostiniana: Enrique Noris (+ 1704) e João Lourenço Berti (+ 1766).

 

3.- TAREFAS APOSTÓLICAS

São as surgidas do contado com o Povo de Deus. Muitos Agostinianos foram nomeados Pastores da Igreja, alguns chamados a reger dioceses de grande categoria na Europa ou em países de missão. Dos primeiros os mais importantes são os já citados, Jerônimo Seripando e Santo Tomás de Vilanova, arcebispos de Nápoles e Valência respectivamente; dos segundos, Aleixo de Meneses, arcebispo de Goa, na Índia.

Os membros da Ordem continuaram, como no período anterior repartindo o pão da palavra através da pregação. Numerosos foram os pregadores de fama, dos que já mencionamos alguns.

A eles temos que acrescentar Bernardino Palomo. O mesmo Seripando “foi um dos principais renovadores da pregação cristã, com o bom uso da Bíblia e segundo o espírito dos Santos Padres”. Célebres foram também Agostinho Moreschini, André Getti de Volterra e Abraão de Santa Clara, pregador da corte em Viena, como antes o Beato Afonso de Orozco o tinha sido na de Filipe II.

A tarefa pastoral não era a mesma em todas as partes da Ordem. Na Itália, já desde antigo, prevaleceu a atividade paroquial. Na França se dedicaram principalmente à labor paroquial e as missões populares. Na Bélgica, sobre tudo a partir do XVII se incrementa a tarefa de educação da juventude, rivalizando com os jesuítas. Na Alemanha desenvolveu-se muito a pregação e certa predileção pelo culto litúrgico. Na Espanha a Portugal, além da pregação, começa-se nessa época a labor educadora na que se tem adquirido tantos méritos. Mas sobre tudo, sua grandeza tem que contemplá-la na atividade missional.

 

4.- LABOR MISSIONAL

A atividade missionária agostiniana neste período foi obra das províncias de Espanha e Portugal. Seu campo de trabalho estendeu-se a três continentes: América, Ásia e África.

A.- AMÉRICA.

México. O primeiro país do novo mundo ao qual chegou um Agostiniano provavelmente foi Venezuela. Ali se encontra em 1527 o aragonês Vicente de Requejada. Mas foi em México onde primeiro cresceu com força a árvore da vida agostiniana. O 22 de maio de 1533 chegavam a Veracruz sete agostinianos da Província de Castela, ao frente dos quais estava o padre Francisco da Cruz. Dois anos mais tarde chegava outro grupo de doze, seis da mesma província e o resto da de Andaluzia. Grupos idênticos foram chegando de modo que em 1562 havia 14 conventos e seis anos mais tarde, em 1568, funda-se a Província do Santíssimo Nome de Jesus de México. O florescimento foi tal que já em 1602 divide-se dando origem à segunda província mexicana, a de Michoacán. Ambas subsistem até hoje. A labor agostiniana naquelas terras foi fundamentalmente evangelizadora, mas também de promoção humana e cultural. Numerosas escolas e Igrejas são testemunho da atividade dos agostinianos e de suas qualidades técnicas e artísticas.

México foi naquela primeira época a base de operações para se movimentar pelo continente e fora dele. Depois falaremos da evangelização de Filipinas levada a cabo desde aqui. Mas antes devemos lembrar a expedição que em 1541 saiu destas terras, a primeira em dar a volta ao mundo. Formavam parte dela quatro agostinianos que na Índia se encontraram com São Francisco Xavier, quem fez deles cálidos elogios. Estes padres eram: Jerônimo de Santistevão, Nicolau de Perea, Sebastião de Trassierra e Afonso de Alvarado.

Peru. De México passaram para Peru. Os primeiros a chegar foram os padres João de Estacio, confessor do Virrei, e João da Madalena. Era o ano 1551. Mas já antes, ainda que no mesmo ano, tinham chegado à terras dos incas outros doze procedentes de Espanha. Como tinha acontecido em México, também aqui chegaram numerosas expedições nos anos seguintes. Na de 1563 veio Diogo Ortiz, protomártir agostiniano no Peru. Em 1575 tinha-se fundado a Província Peruana, cujos conventos estendiam-se até a atual Bolívia, que então formava parte do Peru. À obra evangelizadora uniram a cultural. Em 1608 a Escola de São Ildefonso era declarada por Paulo V Universidade Pontifícia. Agostiniano era o célebre escritor peruano Fernando Valverde (+ 1657). Dessa província era membro o único Prior Geral Latino-americano, o padre Francisco Xavier Vázquez.

Equador: Os dois primeiros agostinianos chegaram a esta nação em 1573 enviados por desejo de Filipe II desde o Peru. Eram os padres Luís Álvarez de Toledo e Gabriel de Saona. A nova província fundou-se sob a proteção de São Miguel em 1579. Também aqui o colégio de São Fulgêncio de Ruspe foi declarado Universidade Pontifícia em 1603. Digno de lembrar é o convento de Santo Agostinho de Quito, um verdadeiro museu de pintura na capital equatoriana.

Colômbia e Venezuela. Ou seja, a Nova Granada daquele tempo. Já em 1601 existia a Província de Nossa Senhora de Graça e em 1663 a dos Recoletos. Os frades que a deram vida à primeira chegaram do Equador em 1575. O primeiro deles, chamado Luís Próspero Pinto, fundou em Bogotá o convento que daria o nome à Província.

Chile: Em 1595, por desejo de Filipe II, chegam os primeiros agostinianos a este país andino. A frente da expedição de seis membros ia o Padre Cristóvão de Vera. A Província fundou-se em 1627. Atenção especial merece Gaspar de Villarroel, bispo de Santiago de Chile. Desta nação passaram depois para Argentina.

Outros países. Os agostinianos fundaram já em 1608 uma casa em Cuba e dois anos depois outra em Guatemala e no Brasil. No século anterior tinham estado presentes também em Honduras e Porto Rico.

 

B.- ÁSIA

Filipinas: Os primeiros missionários estáveis que chegaram àquelas terras de Oriente foram agostinianos espanhóis procedentes de México, que escreveram uma das páginas mais gloriosas da história missional. A expedição foi enviada por Filipe II e como guia da mesma o Rei nomeou André de Urdaneta e como chefe militar André de Legazpi. Além de Urdaneta iam outros quatro agostinianos: Martim de Rada, Diogo de Herrera, André de Aguirre e Paulo de Gamboa. Desembarcaram em Cebú, em 1565 onde aquele mesmo ano, fundaram o primeiro convento. Poucos anos mais tarde fundava-se a Província do Santíssimo Nome de Jesus de Filipinas. Tantos eram os religiosos que tinham chegado àquelas terras que no fim do século XVI existiam 35 conventos. Em 1599 iniciava-se a construção do Convento Santo Agostinho de Manila, “o Escorial de Filipinas”, um edifício que tem aguentado os séculos e numerosos terramotos daquelas terras. Os missionários que chegaram a Filipinas “escreveram sem dúvida as páginas mais heroicas de nossas missões, primeiro naquele arquipélago e depois com o martírio no Japão”.

Japão. Os primeiros agostinianos que passaram às terras do sol nascente foram os padres Francisco Manrique e Mateus de Mendoza, em 1584. Não obstante, a missão agostiniana naquele país não começou até 1602 por obra de Diogo de Guevara e Eustásio Ortiz. Depois de um trabalho que prometia muito, em 1614 chegaram as primeiras perseguições, nas que tiveram parte os protestantes ingleses e holandeses, que obrigavam os missionários a viverem ocultamente entre grandes perigos. Pouco depois chegou o momento de selar a fé com o próprio sangue. Em 1632 eram martirizados os últimos agostinianos. Assim fechou-se uma página gloriosa de nossas missões no Extremo Oriente.

China. Os primeiros missionários agostinianos chegaram a este imenso país em 1680. Mas já tentaram entrar antes. De fato, desde o início pensavam entrar na China mais do que nas Ilhas Filipinas. Não pouparam esforços para entrar como pregadores da fé, mas não conseguiram. Em 1575 os padres Martim de Rada e Jerônimo Martim o conseguiram, mas como embaixadores do governador de Filipinas. Como não lhe foi permitido pregar o evangelho voltaram às Filipinas. A obra propriamente missional e cheia de sacrifícios e frutos foi iniciada pelos padres Álvaro de Benavente e João Nicolau de Rivera e chegou até 1800 quando tiveram que abandonar aquele campo por falta de pessoal. Meio século depois voltariam a entrar.

Índia. Os agostinianos portugueses assim como os espanhóis tinham um grande fervor missionário. Em 1572 encontravam-se na Índia e logo se fundou a Congregação das Índias Orientais dependente da Província portuguesa. Estendia-se desde Arábia até Macau. Atenção especial merece o arcebispo de Goa, Aleixo de Meneses, ao mesmo tempo Virrei. Existiram fundações agostinianas em Iraque até 1640; no Irã desde 1602 até 1747. Também em Geórgia, Paquistão, Sri Lanka (Ceilão). As missões perseveraram até a supressão das Ordens religiosas em Portugal em 1834.

 

C.- ÁFRICA

A façanha missionária realizada pelos agostinianos portugueses na Ásia tinha sido precedida por outra também notável na África, ainda que menos conhecida na Ordem. A primeira presença dos agostinianos no continente negro remonta-se a 1554, quando Gaspar Cão foi nomeado bispo da Ilha de São Tomé no golfo da Guine. Na sua viagem àquela região acompanharam-lhe outros agostinianos que logo se estenderam por terras do Congo a Angola onde floresceu a missão.

Não foi esta a única presença na África. Procedentes da Goa (Índia) os mesmos agostinianos portugueses estabeleceram-se na parte oriental do continente, concretamente na Ilha de Zanzibar e costa de enfrente: a cidade de Mombassa (Quênia) e ilha de Pena. Isto acontecia a finais do XVI. Não faltaram também não aqueles que deram o seu sangue em defesa da fé.

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