Dos escritos de Agostinho

DEUS É A VIDA DE TUA ALMA

“Tua alma morre perdendo a sua vida. Tua alma é a vida do teu corpo, e Deus é a vida de tua alma. Do mesmo modo que o corpo morre quando perde a sua alma, que é sua vida, assim a alma morre quando perde a Deus, que é sua vida. Certamente, a alma é imortal, e de tal modo é imortal, que vive mesmo estando morta. Aquilo que disse o Apóstolo da viúva que vivia em deleites pode-se dizer também da alma que tem perdido o seu Deus: que vivendo está morta”.

(Com. Ev. de João, 47, 8)

terça-feira, 13 de março de 2012

20 lições para conhecer a Santo Agostinho

 

15.- A ORDEM AGOSTINIANA NA HISTÓRIA

(1244-1518 Esplendor e decadência)

 

1.- extensão

A Ordem fundada em 1244 por meio da união de grupos de eremitas da Toscana tinha-se estendido seis anos depois pelas regiões italianas de Liguria, Umbria, Romanha. Em 1250 passa à Ordem o famoso convento de Santa Maria di Popolo em Roma, possessão anterior dos frasciscanos.

A extensão da Ordem não se limitou aos territórios italianos. Antes de 1255 está documentada a existência de Agostinianos na França e Inglaterra e em 1256 também na Espanha e Alemanha.

Da mesma Grande União veio uma grande força expansiva, ao unir-se ao já existente a vitalidade das novas ordens que se uniram. Não lhe tirou a força o fato de que a de São Guilherme e a Congregação de Monte Favale se separaram cedo. Ao menos os conventos dos Guilhermitas existentes na Alemanha e Hungria continuaram pertencendo à Ordem. A Ordem do Beato João Bom estava estendida pelas regiões de Emilia Romanha, Lombardia, Véneto e Umbria. Tem que falar dos conventos de outras Ordens unidas cuja identidade desconhece-se e os da Província lombarda da Ordem dos Padres Católicos que se uniram em 1256.

No momento da Grande União, conhece-se a existência de Províncias na Espanha, Alemanha, França e Itália. Provavelmente nesta última nação existiam várias, correspondentes aos distintos grupos que tinham-se unido.

O número de conventos não se conhece com precisão. Algumas fontes falam de um aumento de 180 a 300 durante o período que esteve sob a proteção do Cardeal Ricardo degli Annibaldi. Respeito ao número de religiosos fala-se de 2000 e 3000, cifra que parece um pouco exagerada.

No fim do século XIII a Ordem tinha-se estendido consideravelmente. O número de províncias tinha ascendido a dezesseis, as quais seis estavam fora do território italiano. Às já citadas é preciso unir as de Hungria, Provenza e Inglaterra.

Trinta e cinco anos depois contam-se já vinte e quatro. Têm desaparecido algumas das anteriores e têm surgido outras novas. Quando falamos de desaparição, às vezes trata-se só do nome. Por exemplo, a Província alemã não aparece porque se tem dividido em quatro: as de Baviera, Colônia, Renania-sueva e Turingia-saxona. Na França aparecem as de Narbona e Tolosa; na Espanha, a de Aragão; na Itália a de Sicília e Terra Santa, com seus conventos nas ilhas do Mediterrâneo. Por estas datas a Ordem estendia-se desde Polônia até Portugal e desde a Irlanda até as Ilhas do Mar Egeu. A situação durou até o século XVI com algumas adições nos Balcãs, Ucrânia e Países Bálticos.

É evidente que até 1350 a Ordem seguiu um processo de continuo crescimento e a partir dai começou a decadência. Uma das causas, não a menos importante, temos que vê-la na Peste Negra, doença que causou numerosíssimas mortes. Em três anos morreram mais de 5000 Agostinianos. Outro motivo temos que vê-lo na decadência geral que vivia a Igreja como consequência sobre tudo do Cisma de Ocidente.

Para fazer frente a esta situação surgiram as Congregações de Observância, que encontraram apoio dos Superiores Gerais que tomavam sob seu controle imediato o governo dos conventos que tinham optado pelo retorno a uma vida mais autenticamente religiosa. Numerosas foram as italianas. Fora desta nação é preciso lembrar na Alemanha a de Saxonia da onde haverá de sair Lutero. Na Espanha começou em 1431 a través da Província de Castela e a partir dela estenderam-se os mesmos ideais de observância a outros conventos da Península.

Neste período três províncias mais unem-se à anteriores: a dos Abruzos (Itália), a de Portugal cujos conventos seguiam pertencendo à de Castela e a de Cerdenha. As duas primeiras fundadas em 1476; a última em 1512.

 

2.- OS ESTUDOS DURANTE ESTE PERÍODO

Os estudos são uma dimensão muito importante da vida da Ordem em quanto herança de Santo Agostinho e em quanto instrumento para a contemplação e o apostolado.

Para encontrar pela primeira vez algo legislado sobre os estudos temos que ir até 1290. Nesta data incluía-se nas Constituições o seguinte, referido ao Superior Geral: “Deve ter como máxima preocupação que se mantenham na Ordem as casa de estudos e formação, sobre os que se depende a estabilidade da Ordem; que especialmente nas casas de estudo gerais deve-se dar o maior apoio e atenção aos estudos e que aqueles que se encontrem dedicados ativamente aos mesmos em cada província sejam estimulados em tal direção”.

A pesar de que é a primeira vez que se legisla algo a respeito nota-se claramente que a preocupação pelos estudos existia já desde antes. De fato, se faz referência à existência de casas dedicadas aos estudos. A primeira delas foi comprada em 1259 em Paris pelo Prior Geral Lanfranco de Milão e foi aberta para os estudos um ano mais tarde. Ali estudou o célebre Egídio Romano, discípulo de Santo Tomás de Aquino. Foi ele o primeiro agostiniano em conseguir o grau de Mestre em Teologia em 1285. Sua fama na Ordem foi tão grande que já no Capítulo de Florença de 1287 proclamou-se-lhe como guia de todos aqueles que na Ordem se dedicassem aos estudos. Foi considerado como o melhor professor da universidade de Paris do seu tempo. Em 1292 foi escolhido Prior Geral e três anos mais tarde arcebispo de Burdeos. Sua morte aconteceu em 1316. A mais conhecida de suas numerosas obras é a titulada O Governo dos Príncipes, traduzido cedo a várias línguas de Europa e até o hebraico.

Entre os numerosos que atrás dele obtiveram títulos acadêmicos, convém relembrar ao discípulo Tiago de Viterbo, seu sucessor na cátedra de Paris. Também escreveu muito. Entre suas obras mais famosas lembramos O Governo Cristão, considerado como o primeiro tratado sobre a Igreja. Também é importante O Poder da Igreja, que influenciou no Papa Bonifácio VIII. No mesmo campo está a obra de outro Agostiniano famoso de sua época, Agostinho de Ancona (+1328), titulada Suma sobre o Poder da Igreja, considerado como o primeiro tratado sobre o Pontífice. Todas estas obras tinham como finalidade concreta defender os direitos dos Papas de então contra as pretensões dos reis.

Dos Priores Gerais destacam no plano intelectual durante este período: Tomas de Estrasburgo (+1357) e Gregório de Rímini (+1358). Este último foi tal vez quem melhor soube compreender e expor o pensamento de Santo Agostinho, sobre tudo em Teologia.

Dentro do campo filosófico podemos destacar, em Espanha, Afonso Vargas de Toledo (+1366) grande personagem do seu tempo que acabou seus dias como arcebispo de Sevilha.

Também vale a pena recordar os autores de temas espirituais. Sobressaem Enrique de Friemar (+1348) ótimo representante do misticismo medieval alemão. O Beato Simão de Cássia (+1348) que exerceu grande influência em Santa Catalina de Sena e Hernão de Schildesche (+1357).

Nos anos posteriores a 1350, ainda que a Ordem no seu conjunto sofresse uma notável decadência nos seus estudos se manteve no primeiro plano. Pode-se afirmar que desde 1350 até 1380 ocupou o primeiro lugar entre as Ordens Religiosas, o qual pode dar a entender o número e qualidade dos teólogos Agostinianos. Entre os personagens celebres lembramos Ugolino de Orvieto (+1374) grande organizador da Universidade de Bolonha, em colaboração com Boaventura de Padova. Agostinho Favaroni de Roma. Na Áustria temos que citar a Leonardo de Carintia; em Praga a Nicolás de Laun; na Hungria a Estevão e Alexandre de Hungria; na Alemanha a Gyso de Colônia e Nicolás de Neuss; na Espanha, Bernardo Oliver, Martín de Córdoba e Tiago Pérez de Valência.

Também entre os humanistas tiveram os Agostinianos grandes representantes. Os amigos mais próximos de Petrarca e Bocaccio eram Agostinianos. Lembremos Martín de Siena quem acompanhou a este último na hora da morte. Humanistas Agostinianos foram Dionisio do Borgo do Santo Sepulcro, Bartolomeu de Urbino, Luiz Marsili, Ambrósio Calepino quem com o seu Dicionário de Sete Línguas mereceu que o seu sobrenome passasse a ser sinônimo de dicionário.

 

3.- TAREFAS APOSTÓLICAS

Ninguém duvida que os estudos constituam já um apostolado qualificado. Não em si, mas em quanto vão acompanhados da comunicação do obtido através deles aos demais, seja escrevendo, seja no ensino direto ou em outras formas de contato com o Povo de Deus.

Já nos primeiros anos de sua existência a Ordem pediu aos Papas que lhe permitissem se dedicar ao apostolado direto, coisa que lhe foi concedida. Segundo Jordão de Saxonia, entre as funções de um Agostiniano estavam: “ensinar e pregar a Palavra de Deus, ouvir confissões e promover a salvação das almas mediante a palavra e bom exemplo”. Outros escritores da Ordem contemporâneos testemunham o posto que esta ocupação tinha na vida dos Agostinianos. Não significava nenhuma novidade; simplesmente seguiam o exemplo de Agostinho, pregador por antonomásia que os Papas tinham colocado repetidamente como exemplo a imitar.

Provas de esta atividade e do sucesso nela as encontramos também fora da Ordem. entre outras, o encargo dado ao Padre Geral por Nicolau IV de selecionar vinte Agostinianos para que percorressem toda Itália pregando a cruzada contra os turcos e em defesa da Terra Santa,. É um testemunho da estimação que ao respeito tinha a Sede Apostólica.

Exemplos dessa atividade foram, entre outros, o Beato Agostinho de Tárano (+1309) e, sobretudo São Nicolau de Tolentino, falecido quatro anos antes que o anterior. Nunca na história faltaram na Ordem bons pregadores. Lembremos deste período o Beato Simão de Cássia, Mariano de Genazzano, e na Espanha o Padroeiro de Salamanca, João de Sahagún. Nem também não faltou quem escrevesse tratados para a formação de futuros pregadores. Assim Tomas de Todi compus o Arte de pregar célebre na sua época com difusão em toda Europa dados os numerosos manuscritos que dele conservamos.

Também temos que ver como serviço à Igreja, e em definitiva, às almas, a presença e participação em vários concílios ecumênicos, começando pelo II de Lyon. Ao de Constança assistiram dezenove Agostinianos, cinco dos quais como delegados de príncipes ou repúblicas. Digno de memória é o suíço João Zacarias, grande artífice da questão hussita até merecer ser chamado “látego de Huss”. Presença agostiniana houve também nos Concílios de Basiléia e V de Letrão.

O numero de prelados da época é igualmente elevado.

 

4.- MISSÕES

No Capítulo Geral celebrado em Colônia em 1374 determinava-se que “as províncias que se encontram em territórios limítrofes com os pagãos dispunham de alguns religiosos bem preparados para pregar a verdade do Evangelho àqueles. É de desejar também que religiosos das restantes províncias, com a autorização do Superior Geral, e do respectivo Provincial, vão a tais territórios e entreguem-se à pregação, devendo fazer isso também para a salvação de suas próprias almas. Deseja-se também que todos os Superiores Provinciais enviem à Província de Terra Santa algum dos seus frades que desejem ir”.

Esta é a primeira legislação oficial em matéria de atividade missionária, mas como no caso dos estudos, não é a primeira vez que os Agostinianos se preocupam com o problema. A atividade missionária dentro da Ordem é mais antiga que essas normas. Começou já no século XIII graças aos religiosos que viviam em regiões limítrofes com povos, ainda sem evangelizar. Vale a pena lembrar a Vito de Hungria que converteu numerosos mongóis entrados na Europa com as invasões daqueles tempos. Igualmente, Nicolau de Bohemia passou muitos anos convertendo pagãos em países Bálticos e ilhas próximas, e obteve do Papa a licença para poder fundar ali uma casa da Ordem. A atividade missionária chegou também às terras da Polônia e Lituânia por obra do cardeal Agostiniano Boaventura de Padova, legado do Papa na corte do rei de Polônia Ladislau, no século XIV. Não cessou de enviar missionários àquela região.

O último religioso de fama no campo missionário foi Tadeu das Ilhas Canárias, célebre missionário naquelas ilhas e posteriormente em Marrocos onde morreu no ano 1470 em odor de santidade sendo venerado até pelos árabes.

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