Dos escritos de Agostinho

DEUS É A VIDA DE TUA ALMA

“Tua alma morre perdendo a sua vida. Tua alma é a vida do teu corpo, e Deus é a vida de tua alma. Do mesmo modo que o corpo morre quando perde a sua alma, que é sua vida, assim a alma morre quando perde a Deus, que é sua vida. Certamente, a alma é imortal, e de tal modo é imortal, que vive mesmo estando morta. Aquilo que disse o Apóstolo da viúva que vivia em deleites pode-se dizer também da alma que tem perdido o seu Deus: que vivendo está morta”.

(Com. Ev. de João, 47, 8)

sexta-feira, 18 de março de 2011

SERVO DE DEUS

Meditando dia e noite a divina lei

Na companhia de seu filho e amigos regressou a Tagaste. Como primeira medida, vende as propriedades de seus pais, dá o produto aos pobres, ficando apenas com a casa para viver com os seus amigos, como servo de Deus.

Os bens a que Agostinho renunciou não foram com certeza muitos, porque não os tinha. Mas ele deixará escrito mais tarde que "muito abandona quem não só abandona o que tem mas até o que deseja ter" (Comentário ao Salmo 103, III, 16). É a expressão de um estado de ânimo pronto a sacrificar nas aras do serviço do Senhor. Com efeito, tinham chegado a Tagaste como "servos de Deus". Poder‑se‑ia pensar no primeiro ensaio dum mosteiro agostiniano.

O que tinha experimentado por pouco tempo e noutras circunstâncias Cassiciaco, vai tornar‑se agora, nos seus planos, em realidade duradoura. A procura da sabedoria chamar‑se‑á, daqui em diante, por outro nome: procura e conquista de Deus. Cristo e a Escritura abrirão o caminho. A razão avançará por essa estrada aberta, sem se afastar dela, nem para a direita nem para esquerda. Sair dela será o equivalente a entrar no erro. A viagem é comprida; é necessária a purificação. É preciso desprender‑se de tudo. A alma tem de caminhar livre, sem nada que atrase a partida ou lhe detenha a passada.

Mas agora já não estão em Cassiciaco. Os projetos de antigamente não bastam. África é um campo de batalha. Ele é membro de uma Igreja que se encontra em tribulação. O maniqueísmo, o donatismo e os pagãos ameaçam afogá‑la. Há que conseguir a ascensão pessoal a Deus; mas é também necessário formar um exercito que lute em defesa desta Igreja. A ambas as coisas se dedicará Agostinho.

Em Tagaste vive‑se num ambiente ascético, onde tudo é comum. O corpo é domado pelos jejuns e a alma é alimentada pela oração e meditação. Ali estuda‑se, reflete, lê‑se, consulta‑se, recolhe‑se cada um no seu interior até chegar a "ver a Deus" através das coisas criadas. Novos interesses penetraram na pequena cidade da Numídia. O conjunto dos amigos forma um centro de estudos. O trabalho intelectual ocupa a maior parte das horas do dia. Agostinho é o pai comum de todos eles, o "diretor espiritual", o mestre de filosofia e teologia e de Sagrada Escritura. O que ele recebe do céu no seu estudo e oração reparte‑o pelos outros. Aos de dentro pela sua palavra e pelos seus escritos. Através destes, também aos de fora.

"Depois de receber o batismo juntamente com outros companheiros e amigos, que também serviam o Senhor, aprouve‑lhe voltar a África, à sua própria casa e herança; e, uma vez ali estabelecido, pelo espaço de quase três anos, renunciando aos seus bens, em companhia de outros que se lhe tinham juntado, vivia para Deus com jejuns, oração e boas obras, meditando dia e noite a divina lei. Comunicava aos outros o que recebia do céu com o seu estudo e oração, ensinando aos presentes e ausentes com a sua palavra e escritos." (Vida de Santo Agostinho, escrita por Posídio, capítulo III).

A primeira instrução é filosófica. São variados os temas propostos à discussão e ao diálogo: a existência de Deus, os graus de ascensão até Ele, a liberdade, a origem do mal, o mestre interior, a providência, etc.. Agostinho dirige, aclara, distingue, explica, sintetiza. Junto com os temas filosóficos vão os teológicos: relação entre a fé e a razão, a Trindade e a Encarnação, pecado original e graça, credibilidade da Igreja Católica, sinais da verdadeira religião, etc. A teologia converte‑se em apologética contra pagãos e hereges. Serve‑se a Igreja.

O jovem Adeodato morre. Tinha dado provas do seu talento no livro intitulado O mestre. Falece também, em Cartago, o amigo Neonídio, que não tinha podido acompanhá‑los no retiro de Tagaste. Foram duas perdas dolorosas para Agostinho.

Os interesses dos que vivem reunidos vão mudando. As questões bíblicas preocupam‑nos. Estão imensamente interessados em conhecer a Escritura, o seu significado. Isto não é fácil; em todas as partes vêem passagens obscuras e questões difíceis. São as questões do dia, as armas que os hereges usam contra a Igreja. A melhor razão que se lhes pode contrapor é a autêntica palavra de Deus. É indispensável conhecê‑la. O que antes era instrumento de perfeição pessoal, está agora ao serviço da Igreja. Agostinho responde como pode às perguntas. Improvisa com freqüência e mais tarde terá de mudar de opinião. Ensina as normas para interpretar a Escritura, para entender os antropomorfismos, a diferença entre o Antigo e o Novo Testamento, etc..

Os livros de Agostinho são copiados, oferecidos, correm de mão em mão. A sua fama estendeu‑se por toda a província. Todos o conhecem, admiram e louvam; pela sua ciência e pelo seu estilo de vida. Outros odeiam‑no; os maniqueus contra os quais já escreveu várias obras; descobriu os seus erros e até os meteu a ridículo.

Agostinho não quer renunciar ao seu estilo de vida. Ao mesmo tempo esforça‑se por ganhar novos membros para o seu ideal. Vai buscá‑los pessoalmente. Tomou as suas precauções antes. Sabe onde pode ir e onde não. Conhece as cidades onde há bispos e onde o necessitam. evita as últimas. Podia ser perigoso para ele. Mas Hipona ainda tem pastor. Portanto não há nenhum perigo que o capturem para o serviço pastoral daquela cidade. E vai sem maior cuidado. Era o ano 391 cuidado Era o ano de 391.

quinta-feira, 17 de março de 2011

NOVO RUMO

Quantos lerem isto, lembrem‑se diante do vosso altar, de Mônica.

Com efeito, a permanência em Milão foi breve. Passado pouco tempo, Agostinho e os seus empreenderam a viagem para Roma, como primeira etapa do projetado regresso a Tagaste. Em Hóstia, junto a Roma, tomariam o barco que os reconduziria às costas africanas. Mas o porto estava bloqueado pela armada do usurpador Máximo. Tal imprevisto obrigou‑os a ficar ali até que fosse possível a navegação. Entrou em contato com nobres famílias cristãs e provavelmente hospedou‑se em casa de uma delas.

Dois acontecimentos de sinal diferente tiveram lugar em Hóstia. O primeiro, o êxtase de Agostinho e Mônica. Assim nos é contado por ele: "Aproximava‑se o dia da morte de minha mãe. Aconteceu que ela e eu nos encontrávamos sós, apoiados numa janela, donde se avistava o jardim interior da casa que habitávamos... Conversávamos a sós, muito docemente. Falávamos da sabedoria de Deus, que desejávamos com ardor e chegamos a tocá‑la um pouco com o nosso coração" (IX, 10, 23‑25).

O segundo foi a morte de Mônica. Passado pouco tempo cai doente e após nove dias de enfermidade, quando contava ela 56 anos de idade e Agostinho com 33, "aquela alma religiosa e piedosa foi desatada do corpo" (IX, 11, 28).

A emoção e a pena que sentiu foram imensas. Enquanto lhe fechava os olhos, afluía ao seu coração uma enorme tristeza, que se transformava em lágrimas. O esforço para contê‑las era grande e esta luta aumentava ainda mais a sua dor, como a aumentava escutar o pranto do filho Adeodato quando a avó deu o último suspiro.

Mônica foi sepultada ali mesmo. Durante o funeral Agostinho conseguiu conter as lágrimas. Mas depois no decorrer do dia viu‑se oprimido pela tristeza. Para a afastar decidiu ir tomar um banho. Tomou‑o, mas assim como se encontrava assim se encontrou depois. Não foi capaz de fazer transpirar do seu coração a amargura da tristeza. "A seguir adormeci ‑ dirá ‑ e ao acordar encontrei a minha dor mitigada" (IX, 12, 32).

Grande tinha sido o amor da mãe pelo filho, mas não menor o do filho pela mãe. As seguintes palavras de Agostinho, de grande beleza e riqueza de sentimentos, são sinal disso: "Senti vontade de chorar na presença de Deus sobre e por ela, sobre mim e por mim. Dei rédea solta às lágrimas que tinha reprimidas para que corressem quanto quisessem, fazendo delas um leito para que o meu coração descansasse, que nele efetivamente encontrou repouso, porque ali estavam os ouvidos de Deus, não os de qualquer homem que interpretasse depreciativamente o meu pranto. Agora, Senhor, to confesso neste escrito. Quem quiser leia‑o e interprete‑o como quiser. E, se acharem pecado que eu chorasse durante uma pequena parte de uma hora a minha mãe recém falecida diante dos meus olhos, a minha mãe que durante tantos anos me tinha chorado diante dos Teus; não se ria: antes, se tem caridade, chore também ele pelos meus pecados, a Ti, Pai de todos os irmãos em Cristo" (IX, 12, 33).

Agostinho volta para Roma até que seja possível fazer‑se ao mar. Aí passa os dias a visitar os mosteiros que existem nos arredores, ao mesmo tempo que se entrega à atividade literária. Possuímos obras de caráter filosófico e apologético escritas por ele neste período. O mesmo fervor que anos antes o tinha impelido a difundir o erro maniqueísta, desdobra‑o agora para o refutar e contrastar com a verdade da Igreja Católica. Não pode tolerar que os maniqueus convertam o seus costumes, que ele tão bem conhece, em apologia da verdade da sua religião. O argumento é válido mas está mal aplicado. É vida dos cristãos e acima de tudo a caridade dos monges a que dá testemunho da verdade católica, dir‑lhes‑ á.

Por fim chegou a hora de atravessar, pela segunda e última vez para Agostinho, as águas do Marenostrum (como lhe chamavam os romanos) o mar Mediterrâneo. Em 388 chegava a Cartago, isto é, cinco anos depois de ter enganado a sua mãe naquele mesmo porto. O que agora regressava não era o mesmo que tinha partido. A nave da sua vida acabava de tomar um novo rumo.

Desta vez a estadia em Cartago foi curta. Tagaste esperava‑o. O s seus projetos iam tornar‑se realidade.

segunda-feira, 14 de março de 2011

UM IDEAL: CONHECER A DEUS NA TRANQÜILIDADE COM OS SEUS AMIGOS

O porto da filosofia

A decisão de Agostinho era definitiva: entregar‑se totalmente à conquista da sabedoria, vivendo só para Deus. A sua alma já estava livre das preocupações, de ambicionar honrarias, de ganhar dinheiro, "de revolver‑se e coçar‑se da sarna da lascívia". Deus era já a sua honraria, a sua riqueza, a sua saúde. Restava por fazer outra opção ainda mais concreta: continuar como professor até que chegasse o fim do ano letivo ou "romper estrondosamente". Não lhe pareceu esta última, a mais adequada. Por sorte, faltavam já poucos dias para as férias da vindima. Resolveu suporta‑los com paciência e retirar‑se no tempo habitual e "resgatado por Deus, não voltar a vender‑se" (IX, 2, 2).

Encontrou uma desculpa fácil e ao mesmo tempo um motivo real. Por causa do excessivo trabalho das aulas, naquele mesmo verão, os pulmões começaram a ressentir‑se e a respirar com dificuldade. As dores no peito que sofria indicavam que havia alguma lesão. O certo era que não podia falar com voz clara e firme durante muito tempo. Ao princípio isto tinha‑o preocupado porque o obrigaria a renunciar, quase por necessidade, ao ensino, ou pelo menos, a interrompê‑lo. Mas agora alegrava‑se que se lhe deparasse esta desculpa verdadeira que diminuiria o desagrado dos pais ao verem os filhos ficarem sem professor.

Assim chegou o dia em que renunciou efetivamente à cátedra da retórica. Deus libertou a sua língua daquilo de que já tinha libertado o seu coração. Como tinha pensado, acabadas as férias da vindima, avisou os milaneses que procurassem para os seus estudantes outro "vendedor de palavras", porque ele, por causa da dificuldade da respiração e a dor no peito, não tinha forças. A causa também, ainda que esta não a tenha dito, era a determinação de servir a Deus.

Abandonada a sua antiga profissão, Agostinho e o seu circulo de amigos retiram‑se para uma quinta que, nos arredores de Milão, possuía o amigo Verecundo que a tinha posto à sua disposição. O seu nome é já célebre: Cassiciaco. Depois de resolver os últimos assuntos na cidade dirigem‑se para lá nos primeiros dias de Novembro. Com ele iam dois alunos: Licencio, filho de Romaniano, seu benfeitor de outros tempos, e Trigécio; os primos Rústico e Lastidiano; Alípio, Adeodato, seu irmão Navígio e a mãe, Mônica.

A estadia em Cassiciaco foi para Agostinho um período de férias. Nada mais justo, terminado o ano letivo e com problemas de saúde. Nada mais necessário, depois de longos meses de angústia e de tensão, de problemas intelectuais e de incertezas morais, de luta e agonia interior, cuja dureza só é conhecida por quem a tenha experimentado. O seu espírito necessitava de paz e tranqüilidade até voltar a encontrar a serenidade completa.

Foi também um período de penitência, de oração e meditação. Na nova situação Deus passava a ser o personagem de primeira linha; tinha‑se tornado o principal interlocutor de Agostinho. Com Ele tinha de repensar o passado, programar o futuro. Tinha sentido a sua mão libertadora, era preciso dar‑Lhe graças. Experimentada a própria incapacidade, não podia prescindir d'Ele para o futuro. Qualquer projeto tinha de ser visto à Sua Luz e à luz da experiência e dos erros passados. Agostinho era dado à introspeção. Tinha de projetar a luz recém descoberta sobre si mesmo, sobre as pessoas que o rodeavam, sobre a natureza e o mundo inteiro que o cercavam, agora que o via de uma forma diferente. Tudo formava uma formosa melodia, bastava entendê‑la; as suas tonalidades, os seus sons. Durante muitas das horas da noite ele meditava e orava.

Aquele período de uns cinco meses, significou para Agostinho, ver realizado o que antes tinha vislumbrado como sendo apenas um sonho: viver em comum com um grupo de amigos, todos interessados na busca da sabedoria. Às horas de trabalho manual, de refeições, de oração, sucediam‑se as empregues em conversas, na discussão de problemas profundos. Conservam‑se os livros escritos naquele tempo, fruto da participação de todos, incluindo a avó Mônica. Três diálogos formosos, nos quais Agostinho tem a parte de leão: Contra os cépticos, A vida feliz, A ordem. Aparecem os temas que preocupavam e ocupavam aqueles amigos: o da verdade: podemos estar seguros de conhecer a verdade?; a felicidade: que é?, em que consiste?, como consegui‑la?; a ordem presente na criação, o mal e a providência; um programa de estudos, etc. .

Daquele tempo é também a obra famosíssima, chamada Solilóquios e que consiste num diálogo entre a razão e a alma de Agostinho. Original em tudo, começando pelo próprio título. É o primeiro auto‑retrato escrito para os amigos e para a posteridade. Encontramos aí as metas intelectuais a que se propunha chegar. ‑Que desejas conhecer? ‑Desejo conhecer a Deus e à alma. ‑Nada mais? ‑Nada mais.

Deus a quem começa invocando com uma oração que adquiriu fama pelo seu conteúdo e pela sua forma. Alma que deve purificar‑se para poder chegar ao gozo de Deus. A meditação do antigo professor prolonga‑se com reflexões sobre a imortalidade da alma. A obra ficou incompleta.

Nas obras a que temos feito referência, vê‑se um Agostinho que evolui, que se vai adaptando à nova situação criada na sua vida. Cristo tem já a máxima autoridade. Todo o saber há de assentar sobre dois pilares: a razão e a autoridade de Cristo, que impedirá aquela de se extraviar. Sente‑se membro da Igreja. Por outras palavras, o Agostinho "pagão" vai dando lugar ao Agostinho cristão. A procura da sabedoria identifica‑se com a procura do Deus de Jesus Cristo; a purificação da alma é levada a efeito pelo cumprimento dos seu mandamentos.

No entanto, as férias de Cassiciaco foram, antes de mais, um período de preparação para o batismo. Com anterioridade tinha escrito ao bispo S. Ambrósio informando‑o dos seus antigos erros e do seu atual propósito, para que lhe aconselhasse quais os livros da Escritura lhe seriam mais úteis ler como preparação para receber o sacramento. Recomendou‑lhe a leitura do profeta Isaias porque ‑ pensou Agostinho ‑ anuncia com mais claridade que os outros, o Evangelho e a vocação dos gentios. Agostinho seguiu o conselho do Santo, mas não entendeu a sua leitura.

Mais tarde ao aproximar‑se a quaresma, quando deviam inscrever‑se no número dos candidatos ao batismo, deixando o campo, voltaram para Milão. Finalmente, depois de ter assistido à catequese dirigida pelo bispo, Agostinho foi batizado pela mão de S. Ambrósio. Era a noite de 24 para 25 de Abril do ano de 387. Com ele entrou a formar parte da Igreja de Deus, Alípio, "revestido já de humildade cristã e grande domador do seu corpo, até ao ponto de se atrever a percorrer descalço o solo gelado de Itália" e, com os dois, Adeodato "nascido carnalmente de mim, fruto do meu pecado" (IX, 6, 14).

Receberam o batismo e fugiu deles toda a intranqüilidade pela vida passada. Foram dias de entusiasmo em que Agostinho não se cansava de pensar na grandeza do plano salvador de Deus. "Quanto chorei, ao ouvir os vossos hinos e cânticos, fortemente comovido pelas vozes da tua Igreja, que cantava com suavidade! Entravam aquelas vozes nos meus ouvidos e a vossa verdade derretia‑se no meu coração; com isto inflamava‑se o afeto de piedade e corriam as lágrimas e com elas sentia‑me bem" (id.). É Agostinho quem fala e é Deus aquele com quem está a falar.

Na época em que escreve As Confissões, ainda conserva fresca a memória: "Quando penso nas lágrimas que derramei ao ouvir os cânticos da Igreja, pouco tempo depois de ter recobrado a fé, reconheço uma vez mais a utilidade deste costume de cantar na Igreja. Ainda agora me comovo, não com o canto, mas com as coisas que se cantam, quando se faz com voz suave e modelada" (X, 33, 50).

Mas na sua mente já pensava abandonar aquelas terras.

domingo, 13 de março de 2011

TOMA E LÊ

Atira‑te a Ele; Ele não se afastará para que não caias

Agostinho tinha encontrado a Deus e o meio para chegar a Ele. As suas aspirações serão, portanto, outras. O que desejava não era já estar mais certo de Deus, mas sim, mais unido a Ele. Descoberta a meta procurava o modo de percorrer o caminho que conduz a ela. Teve uma inspiração: dirigir‑se ao sacerdote Simpliciano, que considerava um santo servo de Deus. A ele poderia contar todas as suas aflições que não tinha podido contar a Ambrósio. Também ele lhe poderia indicar a maneira mais adequada de andar pelas sendas do Senhor.

Colocava‑se‑lhe o problema de escolher a forma de vida para o futuro. Sabia que podia servir a Deus de múltiplas maneiras dentro da Igreja. Qual escolher? A mais perfeita? Algumas correntes o prendiam. "Estava descontente ‑ escreve nas Confissões ‑ com o que estava a fazer. Era para mim um fardo muito pesado. Já não tinha, como antes, o afã das riquezas nem a esperança da glória, que me ajudassem a suportar aquela servidão. Estas coisas já não causavam deleite, uma vez conhecida a doçura e a formosura de Deus. Mas continuava ainda tenazmente acorrentado à mulher. O Apóstolo não me proibia o casamento, mas exortava‑me a algo melhor, desejando com ardor que todos os homens fossem como ele. Eu, fraco como era, escolhi a vida mais suave. (VIII, 1, 2).

Aproxima‑se de Simpliciano que o recebe paternalmente. Como um avô, conta‑lhe histórias da sua juventude, histórias que tinham causado grande sensação no seu tempo. O grande orador Mário Vitorino, tinha‑se convertido e preferiu abandonar a sua carreira antes de renegar a Cristo. A emoção repete‑se, agora, no interior de Agostinho. Depois de escutar a narração da boca do ancião, arde em desejos de o imitar. Agora já vê com clareza e não lhe servem, portanto, as desculpas de antes, para não se entregar a Deus. Mas continuava agarrado à terra e recusava alistar‑se nas hostes de Deus ‑ são palavras suas ‑ e temia ver‑se liberto daquelas cadeias, tanto quanto temia ver‑se preso por elas. "O Senhor fazia‑me ver a verdade e convencido dela não tinha absolutamente nada a responder, a não ser palavras preguiçosas e sonolentas: «Agora, agora mesmo; deixa‑me um pouco», mas aquele «agora, agora» não chegava nunca; e aquele «deixa‑me um pouco» ia sendo muito" (VIII, 15, 12).

Noutra ocasião recebe a visita de um oficial do palácio, Ponticiano, africano como ele e Alípio, que naquela altura o acompanhava. Encontra‑o com o livro das Cartas do apóstolo S. Paulo. E o visitante a contar‑lhe o caso de Santo Antão, célebre monge do Egito. Apesar do seu nome andar já de boca em boca, Agostinho e os seus companheiros nunca tinham ouvido falar dele, coisa que surpreende Ponticiano. Depois fala‑lhe da multidão de cristãos, que já então povoavam os mosteiros, "do perfume divino das suas virtudes", assunto sobre o qual eles nada sabiam. Nem sequer sabiam que na própria cidade de Milão, ainda que nos arrabaldes, havia um mosteiro, "povoado de bons irmãos", e governado por S. Ambrósio (VIII, 6, 14‑15).

A conversa prolonga‑se. Agostinho e o seu companheiro ouvem também como os servidores da corte imperial, residentes em Tréveris, se tinham entregue a Deus. É o início de um novo combate, mais violento no seu interior. "Então, ‑ relata ele ‑ produziu‑se dentro de mim uma grande luta, que eu próprio tinha provocado. Com o rosto e a alma perturbados, aproximei‑me de Alípio e, aos gritos, disse‑lhe: «Que é isto que nos acontece? Que é isto que temos ouvido? Levantam‑se os ignorantes e conquistam o céu e nós, com a nossa ciência, sem coração, chafurdamos na carne e no sangue! Vamos ter vergonha de os seguir, apenas porque nos ultrapassaram? Teremos tão pouca vergonha para nem sequer ir atrás deles? » Se não são exatas, pelo menos foram parecidas, as palavras que pronunciei e entristecido, afastei‑me de Alípio que, assombrado me olhava e calava. Via que eu não falava como era meu costume e, mais que as palavras que dizia, era a fronte, a face, os olhos, a cor e o tom da voz, o que demonstrava o estado em que se encontrava a minha alma" (VIII, 8, 19).

E afastou‑se para a horta de sua casa, para ali, só, ser ele a única testemunha da batalha que se travava no seu coração. Alípio, pé ante pé, foi atrás dele. Como é que o ia deixar sozinho naquele estado. Ambos se sentaram o mais longe de casa que lhes foi possível.

Uma vez mais serão as próprias palavras de Agostinho a descrever a sua situação naquela altura. "Retinham‑me coisas frívolas e sumamente vãs, antigas amigas minhas. Puxavam pela veste da minha carne e diziam‑me baixinho: «Vais deixar‑nos? A partir de agora já não estaremos contigo? Desde este momento já não te será lícito isto ou aquilo?» E que coisas me sugeriam, Deus meu, no que eu chamo isto ou aquilo! Que coisas me sugeriam Deus meu! Que a tua misericórdia as afaste do teu servo! Que sujidades me sugeriam! Mas já não as ouvia todo o meu ser, apenas uma parte. Não se punham já diante de mim para me tolher o passo, mas sim, bichanavam nas minhas costas e quando me afastava, beliscavam‑me como que às escondidas, para que voltasse os olhos e as visse. Mas atrasavam‑me, porque hesitava em arrancar‑me e sacudi‑las e passar de um salto para onde o Senhor me chamava. O costume, que sempre exerce violência, continuava a dizer‑me: «Pensas tu poder viver sem estas coisas? »."

Mas já o dizia com pouco entusiasmo. Naquele lugar, para onde eu tinha dirigido o meu olhar, desvendava‑se‑me a beleza da castidade, serena e alegre sem leviandade. Abria para mim, para me receber e abraçar, as suas piedosas mãos, cheias de múltiplos bons exemplos: numerosas crianças, gente jovem e de todas as idades, veneráveis viúvas e anciãs virgens. Em todos eles resplandecia a castidade, que não é estéril, mas mãe fecunda de filhos... Ela troçava de mim e com humor alentava‑me dizendo: «Não poderás tu o mesmo que estes e estas? Acaso estes e estas podem por si mesmo e não no Senhor seu Deus? O Senhor teu Deus entregou‑me a eles. Porque te apoias em ti se não podes ter‑te de pé? Atira‑te a Ele, não temas; não se afastará para que tu não caias; atira‑te seguro que Ele te receberá e te curará». Senti eu grande vergonha de mim mesmo porque ainda sentia o murmúrio daquelas coisas frívolas e continuava indeciso e suspenso... Mas Alípio, colado a meu lado, esperava em silêncio o desenlace daquela agitação desacostumada em mim" (VIII, 26, 27).

Agostinho necessitava estar completamente só. Levanta‑se de onde estava Alípio, porque a solidão lhe parece mais adequada para chorar e retira‑se para longe, onde nem a sua presença o estorve. Deita‑se sob uma figueira, dá rédea solta às lágrimas e "saltaram dois rios dos meus olhos...". Perguntava‑se com voz lastimosa: "Até quando? Até quando direi: amanhã, amanhã? Porque não agora? Porque não ponho neste momento fim à minha torpeza?"(VIII, 12, 28).

O momento é decisivo. As conseqüências são imensas, não só para Agostinho, mas para a Igreja. Agostinho está quase a romper com todos os laços e a deixar‑se cair nas mãos de Deus. Mas deixemos que sejam as suas próprias palavras a contarem‑nos: "Enquanto dizia isto, o meu coração chorava com amarga contrição. De repente, duma casa vizinha, ouço uma voz, não sei se de menino ou menina, que dizia cantando e repetindo muitas vezes: «Toma e Lê, Toma e Lê». Reprimidas as lágrimas, levantei‑me. Interpretei aquele canto como a voz de Deus que me convidava a abrir o livro e a ler o primeiro capítulo que encontrasse... Por isso voltei a toda a pressa ao lugar onde Alípio estava sentado, onde tinha deixado o livro que continha as Cartas do apóstolo S. Paulo. Agarrei‑o, abriu‑o e li, em silêncio, o primeiro capítulo que caiu sob os meus olhos: Não em comida e na embriaguez, não em desonestidade e dissoluções, não em contendas e ciúmes. Revesti-vos antes do Senhor Jesus Cristo e não vos preocupeis com a carne para lhe satisfazerdes os apetites (Rm., 13, 13‑14). Não quis ler mais nem foi necessário porque mal li esta frase difundiu‑se sobre o meu coração uma luz de segurança e dissiparam‑se as trevas da dúvida."

Então, pondo o dedo ou não sei que outra marca, fechei o livro e já com rosto sereno, contei tudo a Alípio. Por sua vez ele disse‑me o que se estava a passar consigo sem que eu o suspeitasse. Pediu‑me para ver o que eu tinha lido. Mostrei‑lho e ele continuou a ler um pouco mais para diante. O texto continuava com estas palavras: Recebei o débil na fé. Aplicou‑o a si próprio e indicou‑mo tranqüilo e sem tardar associou‑se à minha decisão e propósito, que estava perfeitamente de acordo com os seus costumes, em que desde há muito se me tinha adiantado" (VIII, 12,30).

Depois vão ter com Mônica e contam‑lhe o sucedido. Como é fácil de compreender ela transborda de alegria.

Tal cena tem lugar em finais de Julho ou princípios de Agosto do ano de 386. Agostinho contava 32 anos. Ia começar uma nova etapa da sua vida.