Dos escritos de Agostinho

DEUS É A VIDA DE TUA ALMA

“Tua alma morre perdendo a sua vida. Tua alma é a vida do teu corpo, e Deus é a vida de tua alma. Do mesmo modo que o corpo morre quando perde a sua alma, que é sua vida, assim a alma morre quando perde a Deus, que é sua vida. Certamente, a alma é imortal, e de tal modo é imortal, que vive mesmo estando morta. Aquilo que disse o Apóstolo da viúva que vivia em deleites pode-se dizer também da alma que tem perdido o seu Deus: que vivendo está morta”.

(Com. Ev. de João, 47, 8)

sexta-feira, 1 de abril de 2011

O MISTÉRIO DE DEUS

Quem isto ler, se tem a certeza, avance comigo;

indague comigo, se duvida: volte a mim,

se reconhecer o seu erro e endireite os meus passos quando me extravie

A maior parte da obras de Santo Agostinho tiveram a sua origem na vida da Igreja. Defesa da fé, refutação dos erros dos hereges, ensino dos fiéis, exortação aos indecisos, condescendência ao amor que a todos devia; estavam sempre ao serviço da mãe Igreja.

Não obstante, Agostinho amadurecia projetos no seu coração. Um deles, O Tratado sobre a Santíssima Trindade, o De Trinitate. Uma da poucas obras agostinianas escrita por necessidade interior do santo, sem causa exterior imediata que o impulsionasse a fazê‑lo. A obra era grandiosa na sua concepção e foi‑o na sua realização. Consta de 15 livros. Empregou mais de 20 anos na sua composição. "Comecei‑os na minha juventude e conclui‑os sendo já velho." (Carta, 174). O tempo escasseava. Outras necessidades urgentes da Igreja obrigavam‑no a interromper continuamente o trabalho. Sobre o assunto já se tinha escrito muito, mas quase tudo em grego, língua que ele não dominava. As dificuldades aumentavam ao tentar encontrar os códices. A obra tinha, portanto, de amadurecer à base do tempo, da meditação. Sem dúvida a mais profunda de quantas escreveu o santo, revela a sua enorme capacidade de reflexão e especulação.

Como todos os seus escritos, também este gozou de uma aceitação sem limites. Compreende‑se. A sua fama tinha ultrapassado as estreitas fronteiras da sua diocese; tinha‑se estendido por toda a África e atravessado o mar. Os seus admiradores mostraram‑se impacientes. Até conseguiram roubar‑lhe o manuscrito antes de ele o ter completado e revisto. Gesto de admiração que não agradou muito a Agostinho que prometeu deixá‑la incompleta. Mas ele não era pessoa para cumprir promessas nascidas de um impulso momentâneo. Bastou que os amigos lhe pedissem a conclusão do tratado para que não soubesse recusar. Assim concluiu a tarefa.

Esta obra foi sem dúvida o maior monumento que Agostinho levantou a Deus: Deus Uno e Trino. Unidade de essência e Trindade de Pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo. Cada uma das Pessoas é Deus e no entanto não existe mais que um só Deus. Assim aparece claramente nas Sagradas Escrituras, a razão humana pode chegar a vislumbrá‑lo. Trindade que deixa vestígios da sua presença em toda a criação; de modo especial no homem, especialmente nas suas partes superiores: memória, inteligência e vontade. Trindade sempre presente onde há amor. Isto não seria possível sem um que ama, sem algo amado e sem o próprio amor. Não é Deus amor?

Deste modo Agostinho apresenta a resposta mais completa e harmônica ao Arianismo. Doutrina herética que durante o século anterior tinha atormentado a Igreja, negando o dogma mais intocável que havia: o da Santíssima Trindade. Jesus ‑ dizia ‑ não foi filho natural de Deus; foi‑o como os outros homens, por adoção. Só o Pai é Deus; o Filho e o Espírito Santo são as mais excelentes das criaturas, mas criaturas apenas.

A luta, no entanto, teve de prosseguir. O santo gasta engenho e agudeza, a par de um conhecimento profundo da Palavra de Deus, para levá‑los à verdadeira fé ou, pelo menos, para impedir que os que não estavam contagiados se manchassem com o lodo do erro. Na época de Agostinho o arianismo ainda não estava muito arreigado em África, o que eqüivale a dizer que não se tinha implantado. Afirmava‑se com a chegada dos vândalos. No entanto, nos últimos anos da sua vida teve de pôr‑se a escrever para sair ao encontro das afirmações de alguns arianos, não duvidando em desafiá‑los para debates públicos, na presença de pessoas que escreviam o que se dizia. Coisa que os hereges nem sempre achavam do seu agrado, ao ficar escrito o que afirmavam, perdiam a liberdade de mentir e declararem‑se vencedores, quando a realidade os declarava derrotados.

A obra de Agostinho é um esforço gigantesco para compreender o que já crê. A fé é o princípio, a compreensão é a meta aonde pretende chegar: "Crê para que possas entender". A fé é o degrau para chegar ao andar superior onde é possível conhecer o mistério íntimo de Deus. Esse Deus que invoca, ao qual dá graças e pede perdão nas Confissões; na Cidade de Deus, o Deus, meta e satisfação das aspirações do homem; de tudo que se encontre insatisfeito, quer dizer de todos; simplesmente, Deus.

"Senhor meu e Deus meu, minha única esperança, ouve‑me para que não sucumba no desalento e deixe de te procurar. Anseie sempre pelo teu rosto com ardor. Dá‑me forças para a procura. Tu que fizeste que te encontrasse e me tens dado esperanças de um conhecimento mais perfeito. Diante de ti está a minha ciência e a minha ignorância; se me abres, recebe quem entra; se me fechas, abre ao que chama. Faz que me lembre de ti, te compreenda e te ame. Aumenta em mim estes dons até á minha completa reforma" (conclusão da obra).

terça-feira, 29 de março de 2011

PROMOTOR DA UNIDADE

Judas batiza? É Cristo quem batiza!

Quando nos referimos à África em que viveu Santo Agostinho, não podemos falar da Igreja sem acrescentar mais qualquer coisa. Como conseqüência da perseguição de Diocleciano deu‑se uma cisão na Igreja Africana. A faísca saltou ao ser consagrado Ceciliano, bispo de Cartago, consagração essa efetuada por alguém que, para evitar o martírio, tinha entregue os Livros Sagrados, sabendo que iam ser lançados às chamas. Por isto, um grupo de bispos negou o valor de tal consagração e separou‑se da unidade da Igreja formando a pars Donati, a Igreja donatista, assim chamada pelo nome do segundo bispo cismático, Donato.

A partir daquele momento, em quase todas as cidades do Norte de África, apesar de todas adorarem o mesmo Deus, crerem no mesmo Jesus, proclamarem a mesma esperança, lerem as mesmas Escrituras, administrarem os mesmos sacramentos, etc., existiam duas igrejas, dois bispos, dois cleros, duas celebrações simultâneas do culto divino. Por outras palavras, não existia a unidade. E foi assim que Agostinho encontrou Hipona, quando chegou para exercer o ministério sacerdotal e episcopal. Como em tantos outros lugares, também ali o donatismo era a Igreja com mais força, enquanto os católicos constituíam uma minoria.

"Somos a Igreja pura, imaculada, sem mancha". Assim diziam os donatistas. Auto‑proclamavam‑se a Igreja dos mártires devido às perseguições que sofreram, por parte do imperador, como hereges e cismáticos. Consideravam‑se como o povo eleito, que se tinha preservado sem se contaminarem com o mundo impuro. Portanto, a única Igreja de Cristo, a única que possuía o Espírito Santo, a única que podia dá-Lo na administração dos sacramentos. Só seria válido o batismo se fosse administrado por um donatista, porque pertencia a uma Igreja pura, que possuía o Espírito Santo.

Ao mesmo tempo, consideravam a Igreja Católica como a Igreja dos pecadores, dos "traidores", dos que entregaram os Livros Sagrados, Igreja perseguidora, porque o imperador a apoiava, não a perseguida como o tinha sido a de Cristo anteriormente. Portanto, encontrava‑se desprovida do Espírito. Os sacramentos administrados pelos católicos eram, em conseqüência, nulos. Quem pode dar o que não tem? Como é que um, que não é santo, pode fazer outro santo? Daqui, que todo o católico que, desertando, se passava para as fileiras de Donato, fosse por eles rebatizado.

A restabelecer a unidade do redil de Cristo dedicou Agostinho muitos dias e muitos anos da sua vida. Pregava, escrevia livros, rebatia os dos contrários, procurava debates com eles, na presença dos fiéis de um e outro grupo; escrevia folhetos e colocava‑os à porta da basílica para que todo aquele que entrasse pudesse tomar conhecimento do assunto; escrevia poesias para que deste modo, com música, as pessoas retivessem melhor a posição dos católicos, etc. Valia‑se de todos os meios que a sua rica inteligência e imaginação lhe ofereciam, para afastar os católicos dos donatistas e atrair estes à Igreja Católica.

Aos católicos informava, com documentos na mão, como se tinham passado, na realidade, as coisas. Mostrava‑lhes as calúnias dos adversários. Demonstrava‑lhes que aquilo de que eram acusados pelos donatistas, estes o haviam cometido anteriormente. Mas, acima de tudo, o seu afã era devolver a unidade a quantos se gloriavam do nome de cristãos, restituir à Igreja a unidade que Cristo desejou para ela e pela qual tinha orado ao Pai.

Mostrou aos donatistas que Cristo redimiu todo o mundo com o seu sangue, não apenas aos africanos e que, portanto, a Igreja de Donato não podia ser a verdadeira. Tentou fazer‑lhe ver como a Escritura tinha anunciado a expansão da Igreja por todo o globo, haviam de querer todos os povos e raças. Esforçou‑se por lhes demonstrar que era um sonho a Igreja pura, sem mancha, que eles pretendiam; que isso só se realizará na vida futura, enquanto aqui, segundo o Evangelho, a cizânia está sempre misturada com o trigo; que na pesca do Senhor sempre houve peixes bons e maus.

Sobretudo pôs‑lhes ante os olhos a sua presunção: querer fazer depender a obra de Cristo da liberdade humana. Porque um homem é pecador, já Cristo não pode atuar por meio dele? Não pode Ele, todo poderoso, escolher o instrumento que deseje? Cristo é superior a tudo e serve‑se mesmo dos pecadores para conceder a sua graça. Os católicos possuem o Espírito com mais direito que os donatistas, porque não se separaram do Corpo de Cristo, porque têm amor e não romperam a unidade. Quando os católicos administram os Sacramentos, estes são válidos. Porque, "Pedro batiza? É Cristo quem batiza. Judas batiza? É Cristo quem batiza." Quem batiza é sempre Cristo, por meio dos homens, mesmo pecadores. Como Ele é Santo, Ele faz santos. Quem dirá que é inválido o sacramento administrado por Cristo? Quem se atreverá a declará‑lo nulo? Tal é a doutrina de Agostinho. Portanto não se deve repetir. Cristo ao batizar pôs na alma do cristão um selo que não se apagará jamais, ainda que ele renegue a Cristo. Cristo tomou posse dele para sempre.

Agostinho estava disposto a tudo com o fim de restabelecer a unidade. Disposto até a deixar o episcopado de Hipona ou a compartilhar a cátedra com o colega donatista. A pergunta surge: conseguiu o seu objetivo? Em Hipona, conseguiu, em poucos anos, que os católicos fossem maioria; foi reduzindo ao silêncio os seus opositores. A sua atuação incansável no resto de África preparou o caminho para a desaparição que teve lugar, oficialmente, em 411, depois de um século de luta, com a ajuda da autoridade imperial. Agostinho era temido por todos e por todos evitado. Até lhe prepararam armadilhas para o matar, das quais se livrou graças a um erro do guia.

"Falem o que quiserem contra nós: nós amamo‑los ainda que não queiram. Compreendem que não têm fundamento na sua causa e dirigem as suas línguas contra mim. Muitas são as coisas que sabem e muitas as que ignoram. As que sabem são já passadas, pois fui algum tempo néscio, incrédulo, afastado de qualquer boa obra. Não nego que, louco e insensato, estive em erro perverso, mas quanto não nego a minha vida passada tanto mais louvo a Deus que me perdoou. Por quê, ó herege abandonas a tua causa e te enfrentas com o homem? Que sou eu? Que sou? Acaso sou eu a Católica? Por ventura sou eu a herança de Cristo estendida por todas as nações? Basta‑me estar dentro dela. Censuram‑me as minhas maldades passadas, que fazer de extraordinário? Mais severo sou eu com os meus vícios que tu; o que tu vituperaste, eu condenei. Oxalá quisesses imitar‑me para que o teu erro se fizesse nalgum tempo passado! Aqui vivi mal, confesso. E enquanto gozo da graça de Deus, que direi das minhas iniqüidades passadas? Doem‑me? Doer‑me‑ia se ainda permanecesse nelas. Mas que direi então? Alegro‑me? Também não posso dizer isso. Oxalá nunca tivesse cometido tal coisa!" (Comentário ao Salmo 36, III, 19).

Sempre foi benévolo com eles. Sempre esperou levá‑los à unidade sem o uso da força. Recusava que se os obrigasse a passar para a Católica. Sempre pediu misericórdia para eles. Sempre foi contrário à pena capital, mesmo para os delitos comuns. Nunca queria vê‑la aplicada. A sua atividade foi ininterrupta para conseguir que se mitigassem as penas dos que estavam sob o rigor da justiça.

Contudo, no final da luta aceitou o uso da força para conduzi‑los á unidade da Igreja. Mas só depois de ter visto que de outro modo os êxitos eram muito relativos. Depois de conhecer que muitos não passavam para a Católica, apesar de convertidos, por medo aos seus antigos companheiros e suas vinganças. Depois de ter observado a alegria de algumas aldeias que tinham sido obrigadas a abandonar o donatismo. Se aceitou o apoio da força imperial deve‑se, antes de mais, a sentir‑se pressionado pelos pareceres de muitos dos seus companheiros no episcopado. Estes, por sua vez, com tal atitude, procuraram salvar a sua própria vida que viam ameaçadas por uma parte dos donatistas: os fanáticos circunceliões.

Depois de 411, o donatismo deu‑lhe menos trabalho. A Igreja tinha conseguido a unidade. Não só pela força. A situação estava já preparada pela intensa atividade de Agostinho. Assim, o bispo de Hipona conseguiu restabelecer o que mais amava para a Igreja de Cristo: a unidade. Se não existe unidade não há amor. Se não há amor, ali não está Cristo e por tanto não se pode falar da Igreja de Cristo. E onde não está Cristo, que resta?

Das muitas obras escritas contra os donatistas recordamos:

Salmo contra os donatistas

Réplica à carta de Parmeniano

O batismo contra os donatistas

Réplica ás cartas de Petiliano

A unidade da Igreja.

AGOSTINHO E A ESCRITURA

De aquela cidade a que nos dirigimos foram‑nos enviadas cartas,

as Santas Escrituras nos exortam a viver bem

Para Agostinho, viver cristãmente significa relacionar‑se com Deus. A vida de um cristão tem de ser um diálogo ininterrupto com Ele. O homem fala a Deus com os seus afetos, os seus bons desejos, as suas palavras, com a sua oração: "quando oras, falas com Deus" (Comentário ao Salmo 87, 7). Por sua vez, Deus fala com o homem de infinitas maneiras: com a própria vida, com as coisas que nos rodeiam, com chamamentos interiores, com o exemplo dos outros; mas acima de tudo, pela sua palavra, a Sagrada Escritura: "quando lês, Deus fala‑te" (id..). Qualquer leitura pode ser uma palavra de Deus; ler a Bíblia é sempre ouvir a palavra de Deus.

Uma pessoa afastada de outra a quem ama, para tornar mais suportável a separação, comunica com ela através de cartas. Por meio delas, encurta ou anula as distâncias, tornando‑se presente ao seu amado. Nós estamos longe da nossa pátria, peregrinamos por este mundo. Na terra para onde nos encaminhamos esperam‑nos os que amamos: os santos; espera‑nos quem mais nos ama: Deus. Daquela bendita terra Ele escreve‑nos uma carta. Conta‑nos quanto nos ama, quem Ele é, o que nos promete, que temos de fazer para o conseguir, para chegar até Ele. Esta carta é a Sagrada Escritura. Por isso Agostinho ama‑a até à loucura, toda inteira. No entanto, houve partes privilegiadas. Quem descreverá a ternura com que lia e comentava os Salmos? E já no Novo Testamento, será preciso lembrar os laços que uniam o Apóstolo das Gentes, ao pregador da Graça, ao que foi chamado, mais tarde, Doutor da Graça? Não podemos deixar de mencionar a força da simpatia que o levava a comentar e a pregar sobre os escritos de S. João, que se tinha reclinado sobre o peito do Senhor na Última Ceia e, naquela fonte, tinha bebido as águas salutares do mistério do Verbo e de Deus, até chegar a descobrir o que Deus é: Deus é amor.

De que fala a Escritura? Para Agostinho, a Escritura fala só de Cristo e do seu Corpo, a Igreja. O Antigo Testamento é o Novo, ainda encoberto e o Novo é o Antigo, já manifestado. Apenas faz falta saber ler, para reconhecer a Cristo, já na sua própria pessoa, já na de seus membros. Com freqüência há que ultrapassar o significado literal das palavras e penetrar no mistério que se oculta por detrás delas, porque "humilde a entrada, o seu interior é sublime e envolto em mistério" (Confissões III, 5, 9).

Deus, na Escritura, fala de múltiplas maneiras e nem todos estão aptos para as entender todas. Encontramo‑nos perante uma mistura maravilhosa de claridades e escuridões; claridades, para que todo aquele que se aproxima revestido de humildade, possa conhecer a Deus através das suas palavras; obscuridades, para evitar que os indignos cheguem ao conhecimento de tão sublimes mistérios e, também, para estimular e impelir os mais ousados a cavar mais fundo, sabendo que a palavra de Deus é inesgotável e que é sempre possível descobrir significados mais profundos. A Bíblia é como uma floresta ainda por explorar na sua maior parte e cuja riqueza de conteúdo é inexaurível. Só é preciso procurar, meditar. Mas este trabalho não haverá o homem de o fazer sozinho; necessita da ajuda de Deus; precisa que Ele o guie. Que nos deixemos levar pela mão do Senhor.

"Para mim não há nada melhor; nada me é mais doce que contemplar o tesouro divino, na tranqüilidade e sem pressas: isto é verdadeiramente bom, isto é verdadeiramente doce" (Serm. Frang. 2, 4). Doce contemplação considerada como um serviço: "Eu alimento‑me para poder alimentar‑vos. Sou o servo, o que traz o alimento, não o dono da casa. Eu exponho diante de vós aquilo de que eu próprio recebo a vida" (id.). Agostinho estuda, medita, para depois alimentar os seus fiéis. A Bíblia é, pois, como o alimento que a mãe toma para depois dá‑lo, transformado em leite, a seus filhos. Agostinho nunca foi um estudioso desinteressado da Escritura: "Tudo o que possuo desta ciência (Sagrada Escritura) administro‑o imediatamente ao povo de Deus" (Carta 73, 2, 5).

Os contatos de Agostinho com a Sagrada Escritura duraram toda a sua existência. Tanto o Antigo como o Novo Testamento foram objeto dos seus trabalhos. Comentava-os ele próprio e ensinava aos outros as normas que hão de reger toda a explicação. Umas vezes tomava ele a iniciativa, outras o estímulo era‑lhe proporcionado pelos pedidos dos que admiravam a sua ciência e a sua disponibilidade.

Entre as obras escriturísticas recordamos:

Comentário ao Gênesis em réplica aos maniqueus.

Comentário literal ao Gênesis (12 livros).

A concordância dos quatro evangelistas.

O sermão da montanha.

A doutrina cristã.

segunda-feira, 28 de março de 2011

TUDO É BOM

Eu não posso ser cruel convosco

Durante o seu sacerdócio e episcopado, Agostinho continuou a tarefa que encetara mal fora batizado: refutar o maniqueísmo, a religião que o teve prisioneiro durante nove anos. Ninguém se achava em melhores condições que ele, para o fazer. A sua adesão tinha sido fervorosa e com exemplar aplicação dedicara‑se à leitura dos livros da seita.

O maniqueísmo, grupo religioso procedente da Pérsia, tinha‑se difundido, com surpreendente rapidez, por todo o império romano do oriente e ocidente. A clandestinidade tinha sido o seu meio de vida normal. Proscrito pelas leis imperiais, os pagãos olhavam‑no com horror e os cristãos ortodoxos com temor e ódio. Era um concorrente perigoso; também ele se fazia passar por cristão, aceitando a seu modo o Novo Testamento e recusando o Antigo como ignominioso.

A doutrina de Manes, o seu fundador, baseava‑se no dualismo; no começo existiam dois princípios, dois reinos, inimigos e irreconciliáveis entre si; um bom e outro mau; o "reino da luz" e o "reino das trevas". Este último, invejoso da felicidade do primeiro, ataca‑o. O outro, para se defender, entrega‑lhe uma parte de si próprio, que é instantaneamente devorada pelo princípio mau. Uma parte da luz encontra‑se aprisionada nas trevas. É neste momento que começa a história. A criação do mundo foi levada a cabo para executar a libertação. Todos os seres vivos contêm esses dois princípios: a matéria, intrinsecamente má porquanto é formada por elementos do reino das trevas, e uma parte de luz, portanto boa.

O homem não é excluído, dentro de si há um elemento bom e outro mau, que obram respectivamente o bem e o mal. Para o homem maniqueísta não existe liberdade. Não é o homem quem peca, mas sim o princípio mau que habita no seu interior. Não é de estranhar que Agostinho achasse esta doutrina atraente, que lhe explicava, por um lado, a origem do mal ‑ não procede do Deus bom, coisa inconcebível ‑ e, por outro, acreditava que o libertava da responsabilidade dos seus pecados.

"Sejam cruéis convosco os que ignoram quanto custa encontrar a verdade e quão difícil é evitar os erros.

Sejam cruéis convosco os que desconhecem quão poucas vezes e com quanta dificuldade acontece poder superar as imagens carnais com a serenidade de uma mente piedosa.

Sejam cruéis convosco os que não sabem o que custa sarar o olho interior do homem, de modo que possa ver o seu sol. Não este a quem vós adorais, dotado de um corpo celeste, que brilha e emite os seus raios aos olhos carnais de homens e animais, mas aquele de quem escreve o profeta: nasceu‑me o sol de justiça; e no Evangelho: a luz verdadeira que ilumina todo o homem que vem a este mundo.

Sejam cruéis convosco o que desconhecem quanto é preciso suspirar e gemer até chegar a poder compreender alguma coisa de Deus.

Finalmente, sejam cruéis convosco os que nunca se viram apanhados no erro no qual vos vêem a vós.".

Contudo, o maniqueísmo tinha uns deveres muito concretos: Libertar o seu deus. Libertar do poder da matéria a partícula de luz presente em toda a criação; nas pedras, nas plantas, nos animais, no próprio homem. No maniqueísmo não é Deus que redime o homem; é o próprio homem que redime a Deus!

Daqui procedem as normas, a que deve ajustar a sua conduta todo o fiel maniqueu: os ouvintes, categoria inferior, na medida do possível, e os eleitos, ou perfeitos, de forma absoluta. Tais normas eram contidas no que eles chamavam os três selos: da boca, das mãos e do ventre. Pelo selo da boca era‑lhes proibido blasfemar e comer carne por se considerar que pertencia ao reino das trevas. Pelo selo das mãos era‑lhes proibido tirar a vida a qualquer ser vivo, mesmo vegetal, por exemplo: apanhar figos, porque era maltratar a Deus. O do ventre proibia‑os de contrair matrimônio, pois gerar filhos significava aumentar o número de prisões para a divindade.

Os eleitos, a quem era proibido romper qualquer destes selos, eram alimentados pelos ouvintes e de forma totalmente vegetariana. Nas oficinas dos seus estômagos efetuava-se a desejada libertação. A partícula de luz que tinha recobrado a liberdade era levada ao reino do Pai. O meio de transporte era o sol e a lua que periodicamente efetuavam o seu percurso. Quando esta se achava em quarto crescente, ia; quando em minguante, vinha. Assim seguiam com uma série enorme de mitos que Agostinho se encarregava de pôr a ridículo, interpretando‑os em sentido literal.

Como nas restantes controvérsias, os caminhos seguidos por Agostinho para combater o erro foram múltiplos: livros, pregação, encontros pessoais com membros do grupo opositor, debates públicos, etc..

Não é difícil enumerar as verdades, das quais Agostinho se tornou advogado contra os maniqueus. Antes de mais demonstrou o caráter de fábula e mítico de toda aquela construção, que se opunha ostensivamente a todas as afirmações da ciência, em especial da astronomia. Aos que, no seu modo de ver, dotes científicos exigiam que acreditassem no que ia contra as verdades mais certas e seguras das ciências.

Nega‑lhes o nome de cristãos. Não pertence aos que não aceitam íntegros o Antigo e o Novo Testamento, nem os que recusam a Cristo, tal como aparece nos Evangelhos, quer dizer, um Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, de carne e osso. O Cristo deles era uma espécie de fantasma, sem carne, ainda que a aparentasse. Também não se podiam arrogar o nome de cristãos aqueles que negavam verdades fundamentais que Agostinho defendeu, com afinco, contra eles.

Princípio Supremo só há um, o Deus bom, criador de tudo quanto existe, com absoluta liberdade. Criador por amor, não por necessidade.

Por conseqüência, a criação é boa. Tudo quanto existe, enquanto criado por Deus, é bom.

O mal moral tem a sua origem na vontade do homem, que decidiu livremente afastar‑se de Deus. Não procede de nenhum outro princípio. O mal físico procede do próprio ser de criaturas, ser deficiente, não pleno como o de Deus.

O homem é livre para escolher o bem ou o mal. Deus ao criá‑lo dotou‑o com esse dom. Nenhuma força irresistível o ata. O mal que o homem sente dentro de si e que o inclina ao pecado, teve a sua origem no pecado de Adão.

O verdadeiro Redentor é Cristo, não o homem. O redimido é o homem, não Deus.

Os três selos maniqueus são um absurdo evidente. A carne é obra de Deus: portanto é boa e pode comer‑se. A criação foi posta pelo Senhor nas mãos do homem para que este se sirva dela. Nada impede matar animais ou servir‑se de plantas para o próprio sustento. O matrimônio é coisa santa e boa. Proibi-lo é afastar‑se da verdade. O que não obsta que muitos, procurando uma perfeição superior renunciem a ele, para se entregarem total e integralmente a Deus.

"Mas eu, que inchado por uma enorme jactância durante muito tempo, por fim pude contemplar em que consiste aquela sinceridade que se percebe sem necessidade de fábulas vazias de conteúdo.

Que miserável, mal merecia com a ajuda de Deus vencer as vãs imaginações da minha mente presa pelas mais variadas opiniões e erros.

Que, para dissipar as névoas da minha mente, demorei tanto em submeter‑me ao médico, cheio de clemência que me chamava e me afagava.

Que chorei por muito tempo para que a Substância imutável que não pode admitir mácula alguma, que fala nas Sagradas Escrituras, se dignasse persuadir o meu coração.

Que, finalmente, procurei com curiosidade todas aquelas ilusões, que vos têm atados e prisioneiros na força do hábito, que as escutei com muita atenção e as acreditei sem tirar delas proveito e trabalhei sem descanso para convencer a quantos pude e defendi‑as com constância e valentia contra outros.

Eu não posso ser cruel convosco, a quem agora devo suportar como, noutro tempo, a mim próprio e com quem devo ter tanta paciência quanta tiveram comigo aqueles que viviam a meu lado, quando errava no vosso erro, cheio de raiva e cegueira." (Réplica à Carta de Manes, chamada "Do fundamento", 2‑3, 3‑4).

Na sua luta contra os maniqueus, Agostinho serve‑se de todos os meios de que dispunha a sua ótima preparação. Dá razões, apresenta textos bíblicos aceites pelos adversários, mostra os despropósitos que se seguem da sua doutrina, do seu modo de obrar, ironiza, satiriza, etc., mas, ao mesmo tempo respeita‑os. A sua intenção era destruir o erro e salvar o que erra, recuperá‑lo para a verdadeira fé de Cristo. Princípio que foi norma constante da sua vida. "Odeia o erro e ama o homem que erra". Esta é a sua doutrina: "não ames no homem o erro, mas o homem, pois o homem é obra de Deus; ao contrário o erro é obra do homem. Ama a obra de Deus e não ames a obra do homem. Quando amas o homem, arranca‑lo do erro; quando o amas ajuda‑lo a emendar‑se". (Comentário à Carta I de João, 7, 11).

Entre as obras contra o maniqueísmo recordamos:

Os costumes da Igreja Católica e os dos maniqueus.

Réplica à Carta "do Fundamento".

Réplica a Fausto, o maniqueu (33 livros).

A natureza do bem.

Resposta ao maniqueu Secundino.

domingo, 27 de março de 2011

NO MOSTEIRO

"Suas vestes, calçado e enxoval doméstico eram modestos e adequados: nem demasiado preciosos nem demasiados vis, porque estas coisas costumam ser para os homens motivo de jactância ou de abjeção, ao não procurar por elas os interesses de Jesus Cristo mas os próprios. Mas ele, como já se disse, ia por um caminho intermédio, sem virar para a esquerda nem para a direita.

A mesa era parca e frugal, onde abundavam as verduras e os legumes, e algumas vezes carne, por delicadeza para com os hóspedes e as pessoas fracas. Não faltava o vinho, porque sabia e ensinava como o apóstolo que porque tudo o que Deus criou é bom, e não é para desprezar, contanto que se tome em ação de graças, pois é santificado pela palavra de Deus e pela oração ( I Tm, 4. 4‑5).

De prata só usava as colheres; todo o resto da baixela era de barro, madeira ou mármore; e isto não por uma indigência forçada, mas sim por pobreza voluntária.

Também se mostrava sempre muito hospitaleiro.

E, à mesa atraia‑o mais a leitura e a conversa que a vontade de comer e beber. Contra a peste da murmuração tinha este aviso escrito em verso:

O que é amigo de roer vidas alheias

Não é digno de se sentar e comer a esta mesa.

E convidava os presentes a não salpicar a conversa com contos e maledicências. Certa ocasião, em que uns bispos, muito de sua casa, davam rédea solta às suas línguas, indo contra o prescrito, admoestou‑os muito severamente, dizendo com pena que, ou tinha de se apagar aqueles versos ou ele se levantaria da mesa e se retiraria para o seu quarto. Desta cena fui eu testemunha e outros comensais.

Nunca esquecia os companheiros na sua pobreza, socorrendo‑os do que se provia ele e os seus comensais, isto é, ou dos rendimentos e bens da Igreja, ou das ofertas dos fiéis. E, como por causa dos bens, o clero era alvo da inveja, como costuma acontecer, o Santo pregando aos seus fiéis, costumava dizer‑lhes que preferia viver das esmolas do povo a ter a administração e o cuidado das propriedades eclesiásticas e que estava disposto a cedê‑las para que todos os servos de Deus vivessem do serviço do altar. Mas os fiéis nunca aceitaram tal proposta." (Vida, 22‑23).