Dos escritos de Agostinho

DEUS É A VIDA DE TUA ALMA

“Tua alma morre perdendo a sua vida. Tua alma é a vida do teu corpo, e Deus é a vida de tua alma. Do mesmo modo que o corpo morre quando perde a sua alma, que é sua vida, assim a alma morre quando perde a Deus, que é sua vida. Certamente, a alma é imortal, e de tal modo é imortal, que vive mesmo estando morta. Aquilo que disse o Apóstolo da viúva que vivia em deleites pode-se dizer também da alma que tem perdido o seu Deus: que vivendo está morta”.

(Com. Ev. de João, 47, 8)

sexta-feira, 11 de março de 2011

OS PROBLEMAS DA INTELIGÊNCIA

Antes duvidaria de que vivo

Agostinho estava atormentado não apenas por estas hesitações sobre o plano de vida a realizar. Outros problemas de ordem puramente intelectual ocupavam a sua mente. O primeiro de todos: como conceber o ser de Deus? Afastava a idéia de que Deus tivesse forma de homem; ao mesmo tempo dava como certo que o ser divino era incorruptível, imutável. Mas sendo incapaz de se representar um ser espiritual, via‑se obrigado a imaginá‑lo como algo corpóreo, que se estendia pelo espaço. As imagens que circulavam pela sua mente eram as mesmas que lhe passavam pelos o olhos.

Entretanto continuava a procurar razões e argumentos para afastar de uma forma definitiva o fantasma do Deus maniqueísta, e os outros que se lhe seguiam, segundo uma lógica precisa. Preocupava‑o de um modo especial o problema do mal. Quem tinha plantado no seu interior "um alfobre de amargura", dado que tinha sido criado por Deus, que era extremamente doce? Com tais pensamentos afundava‑se cada vez mais e quase se afogava, mas já sem se submergir naquele "inferno do erro maniqueísta".

A ignorância em torno da origem do mal encontrava‑se unida a não poucas certezas; algumas nunca o tinham abandonado; outras reconquistadas naquele período de pesquisa e reflexão. "Eu ‑ são palavras suas ‑ continuava a procurar a origem do mal sem encontrar saída. Mas Deus não permitia que as vagas daqueles pensamentos me afastassem da fé pela qual cria na sua existência, que o seu ser não estava sujeito a qualquer mudança, que tinha providencia de todos os homens e que os havia de julgar. Conservava a fé em Jesus e acreditava nas Sagradas Escrituras tal como a Igreja as explicava. Estava já convencido de que nelas Deus tinha posto o caminho para a salvação eterna" (VII, 7, 11).

Depressa se lhe aclararam os enigmas e se somaram às certezas. Quis Deus que caíssem nas suas mãos os livros de alguns filósofos neoplatônicos. Um famoso orador pagão, Mário Vitorino, tinha‑os traduzido do grego para o latim e tinha‑os tingido do Evangelho. Tais livros resolveram‑lhe problemas que pouco antes lhe pareciam quase insolúveis. Permitiram‑lhe conhecer o verdadeiro ser de Deus, ser espiritual. Deus fez‑lhe ver algo que antes não era capaz de ver. Com expressão sua, Deus deslumbrou os seus olhos débeis, reverberando em cheio neles, e estremeceu de amor e de horror. Compreendeu que se encontrava numa região distante donde Deus lhe falava para lhe dizer "Sou alimento de grandes: cresce e comer‑me‑ás. Mas tu não me transformarás em ti, como o alimento da tua carne, mas sim, te transformarás tu em mim" (VII, 10, 16).

A certeza adquirida foi absoluta e total. Ouviu isto "como se ouvem as coisas no coração, sem poder de modo algum duvidar. Antes de duvidar da existência daquela verdade, duvidaria que estou vivo" (idem). Descoberto o verdadeiro Deus, descobre o verdadeiro ser das coisas, participação do ser de Deus, que portanto, são boas como Ele e que só a sua existência é um canto de louvor a quem as criou.

Ao mesmo tempo, encontrou soluções para o problema do mal. O mal físico, lógica conseqüência do fato de que a criação não é Deus. Todo o criado participa do ser, não é o ser; num sentido é e noutro não é. Neste não‑ser consiste o mal; é a falta de perfeição. Também achou solução para o mal moral. Não é outra coisa senão um desvio da vontade, que se afasta de Deus para se voltar para o que não é Deus, para as criaturas.

Os progressos realizados eram grandes, mas o caminho ainda não estava livre para se entregar totalmente a Deus. Já não amava um fantasma no lugar de Deus, mas sim a Deus mesmo. Mas alguma coisa ainda o impedia de gozar com plenitude e de se confiar sem reservas. Era o peso do hábito carnal que o mantinha apegado à terra.

Agostinho tinha descoberto a Deus, pátria e gozo definitivo. Averiguou para onde deve caminhar mas ignora por onde; desconhece o caminho que conduz, não apenas a vislumbrar a pátria bem‑aventurada, mas também a habitá‑la.

O caminho não é outro senão Jesus. Mas d'Ele tinham Agostinho e Alípio uma opinião errada. Ainda não sentiam a respeito de Cristo o mesmo que sentia a Igreja. Enquanto ela vê em Jesus o Filho de Deus, o Verbo do Pai e, portanto, Deus como Ele, Agostinho via n'Ele um homem extraordinário cuja sabedoria ninguém podia igualar; homem extraordinário também conquanto nascera maravilhosamente de uma virgem para dar‑nos o exemplo de como desprezar as coisas terrenas para alcançar as eternas. Por tudo isto tinha merecido ser considerado como um grande mestre. Mas ainda não compreendia o que queria dizer aquilo que tantas vezes ouvira: o Verbo se fez carne. Mais ainda, nem o podia suspeitar. Como é possível a sua ignorância neste campo? Não lhe tinha Mônica ensinado a verdadeira fé da Igreja? Tão longe o tinha levado o seu erro?

A solução definitiva encontrou‑a no único sítio onde a podia encontrar. Depois de lidos os livros dos platônicos, pôs a ler com entusiasmo as Sagradas Escrituras, em especial o apóstolo S. Paulo. Começou então a compreendê‑las. Já não via contradição entre uns livros e outros, entre o Antigo e o Novo Testamento. "Desvendou‑se a meus olhos ‑ dirá ‑ o único rosto das castas palavras de Deus e aprendi a alegrar‑me com temor" (VII, 21, 27). Que diferença entre esta leitura e a primeira vez que teve acesso à Bíblia! Não foi em vão que tinham já passado mais de dez anos de angústias e de fome espiritual.

Ultrapassado o materialismo, as dúvidas da sua inteligência estavam dissipadas. Seria capaz de se entregar a esse Cristo totalmente descoberto na sua divindade? Quem lhe iria impedir tal generosidade? Melhor, quem o ajudaria a dar o salto vital até às mãos de Deus?

quarta-feira, 9 de março de 2011

III.- UM DESEJO: ENCONTRAR A DEUS. QUE FAZER?

Tínhamos pensado viver juntos pondo tudo em comum.

Agostinho compartilhava os seus problemas com os amigos, especialmente com Alípio e Nebrídio, aos quais o uniam fortes laços de amizade. Lamentavam‑se mutuamente da situação de incerteza em que se encontravam.

Ambas as amizades duraram tanto como as suas vidas. A de Nebrídio pouco, porque morreu não muito depois. Alípio será, por sua vez, o seu braço direito durante os anos de episcopado. Tinha sido seu discípulo em Tagaste e em Cartago. O afeto era recíproco. Alípio amava a Agostinho porque o considerava bom e sábio. Agostinho a Alípio pelo seu bom caráter e bondade, que o faziam destacar em relação aos outros. O torvelinho dos costumes de Cartago tinham feito dele um fanático dos jogos de circo, loucura da qual o próprio Agostinho o libertaria.

Nebrídio tinha abandonado a sua casa e a sua mãe e tinha‑se mudado para Milão para se consagrar, juntamente com Agostinho, ao estudo da sabedoria e à procura da verdade. Participava dos desejos e ânsias do grupo e caracterizava‑se por ser um ardente investigador da vida feliz sem se deter perante qualquer tipo de dificuldade.

Eram "três bocas famintas" que suspiravam por um alimento mais sólido do que aquele que lhes oferecia a dúvida em que viviam. As trevas espirituais constituíam o meio ambiente em que se desenvolvia a sua vida. Misturava‑se neles a ânsia de encontrar algo de novo com a preguiça de mudar. O que tinham não os satisfazia mas onde encontrar algo que os realizasse mais?

Não podemos transcrever as formosas páginas das Confissões, que descrevem o seu estado de ânimo, recordando os onze anos que tinham transcorrido desde que começou a ter gosto pela sabedoria, após os quais ainda não levantara vôo. São as hesitações de um homem que tem esperança no amanhã, que examina os progressos feitos e o muito que lhe falta avançar; que não encontra nada seguro; o que antes lhe parecia absurdo, as Escrituras, agora já não se lhe apresentam assim. É o homem que se anima a si próprio para continuar procurando, mas as dificuldades vêm ao seu encontro: quem o ajudará? onde irá buscar tempo? quem lhe emprestará os livros? quando preparará as aulas que os estudantes lhe pagam? porque não abandonar tudo e ocupar‑se totalmente na procura da sabedoria, da verdade? ou não será melhor esperar até ter um bom lugar, arranjar um casamento rico e depois entregar‑se com maior liberdade à sabedoria, uma vez resolvido o problema da subsistência?

Planeiam projetos concretos. Pensaram e até se propuseram afastarem‑se do ruído mundano e viverem na tranqüilidade de um lugar afastado. Trata‑se de viver juntos, pondo tudo em comum, de modo que, em virtude da sincera amizade que os une, tudo seja de todos e não uma coisa de um e outra de outro. O que se obtenha com a doação de cada um há de ser todo de cada um e tudo de todos. O grupo é constituído por uns dez amigos. O seu protetor de outros tempos, o rico Romaniano, é um deles. Ele, além disso, tomará a seu cargo a resolução do problema econômico. Estava tudo programado mas quando começaram a falar das mulheres, aquele projeto tão perfeitamente planeado como que se lhes caiu das mãos e fez‑se em pedaços. Uns, com efeito, já eram casados e outros, como Agostinho, pensavam fazê‑lo. Mudadas as circunstâncias o projeto tornar‑se‑á realidade uns anos mais tarde.

Insistiam para que se casasse. Mônica, sua mãe, foi quem mais se movimentou nesta direção, procurando encontrar‑lhe uma noiva . Chegou a pedir a mão de uma menina a quem faltavam dois anos para se poder casar, segundo a lei romana. Agostinho tinha trinta anos e ela apenas dez! O sacrifício que lhe foi exigido para isso foi enorme: abandonar a mulher que o tinha acompanhado ao longo de doze anos. Ele conta‑nos com estas palavras: "Quando arrancaram do meu lado, como estorvo para o matrimônio, a mulher com quem eu costumava partilhar o meu leito, o coração ficou dilacerado pela ferida. Ficou chagado e sangrando. Ela foi para África, fazendo voto a Deus de não voltar a conhecer varão e deixou comigo o filho que tínhamos tido. Eu, desgraçado, sendo incapaz de imitar uma mulher, não podendo esperar tanto tempo, procurei outra, até que pudesse tomar a que estava destinada a ser minha esposa... Mas a ferida, que me tinham feito ao arrancar a primeira do meu lado, não se curava; pelo contrário, passado o agudíssimo ardor e dor iniciais, começava a apodrecer; uma dor mais fria mas mais desesperada" (VI, 15, 25). Página emocionante que nos mostra com que intensidade Agostinho a amava

segunda-feira, 7 de março de 2011

AQUELE HOMEM DE DEUS: SANTO AMBRÓSIO

Ele não conhecia as minhas aflições

Chega a Milão. Em breve irá visitar o bispo da cidade, Santo Ambrósio, já célebre em todo o mundo. A ele era levado por Deus, sem o saber, diz Agostinho, para ser levado a Deus por ele, sabendo‑o. Aquele santo homem recebe‑o paternalmente e interessa‑se pela sua vinda. Depressa o africano começa a amá‑lo. A princípio não como a um mestre da verdade, porque ainda não tinha esperança de a encontrar na Igreja Católica. Amava‑o apenas como a um homem que tinha sido afável com ele.

Assistia aos seus sermões, que escutava com interesse, ainda que apenas para comprovar se falava tão bem como se dizia. Ficava suspenso das suas palavras, apesar de não prestar atenção ao conteúdo das mesmas. Naquela altura desprezava‑o. Mas, a pouco e pouco, foram‑se gravando na sua alma as verdades contidas naquelas palavras, que ouvia com agrado. "Ao abrir o coração para perceber quão brilhantemente falava, ao mesmo tempo percebia com quanta verdade falava" (V, 14, 24). Foi, sem dúvida, um processo lento. Agora pensava que se podiam defender coisas, que antes lhe pareciam absurdas. O sentido espiritual, em que era mestre Santo Ambrósio, explicava muitas passagens obscuras da Bíblia. Isto fez Agostinho refletir sobre a falta de fundamento da sua desconfiança em encontrar a verdade nas Escrituras. Era o primeiro passo e era importante. Mas ele estava todavia longe de se decidir a seguir o caminho dos católicos, pois ainda que a religião de sua mãe não lhe parecesse vencida, também não a dava por vencedora.

Escutando a Ambrósio, aumenta também a sua desconfiança perante os maniqueus, até se tornar total. Agora compreende a falsidade de muitas das acusações contra a doutrina católica. Em conseqüência, ainda no meio de muitas dúvidas, toma a decisão de se desligar por completo deles. A sua doutrina parecia‑lhe completamente insustentável . Mas também não quis entregar‑se aos filósofos para que lhe curassem a alma doente, porque nos seus escritos não encontrava o nome de Cristo. No meio de estas incertezas, optou por fazer‑se catecúmeno da Igreja Católica, ao menos até encontrar outra via melhor. Iniciava assim o regresso à fé de Mônica.

Nesta situação encontrou‑o sua mãe, que tinha ido ao seu encontro, seguindo‑o por mar e por terra, confiando no Senhor em todos os perigos. Logo se pôs em contato com Ambrósio "a quem amava como a um anjo de Deus", amor que demonstrou submetendo‑se a todas as normas dadas por ele, mesmo quando eram contrárias às que anteriormente tinha seguido em terra africana.

Durante este período Ambrósio ocupava permanentemente o pensamento de Mônica e, sobretudo, o de Agostinho. Ainda que não compreendendo o seu celibato, considerava‑o um homem feliz, porque toda a gente, incluindo as mais altas autoridades do império, o honrava e respeitava. Mas, dirá o mesmo Agostinho, "eu não podia suspeitar as lutas que sustinha contra as tentações da sua própria grandeza". É certo que também Ambrósio não tinha idéia das aflições que atormentavam Agostinho, nem tinha razão para conhecê‑las. Muitas vezes o professor africano tentou encontrar‑se com o bispo e expor-lhe pormenorizadamente a sua situação, mas não lhe foi possível. Sempre o encontrava ocupado a atender as multidões que acorriam ao seu gabinete ou, quando lhe ficava algum tempo livre, além do empregue nas refeições, absorvido na leitura. Muitas vezes quis entrar em diálogo com ele, mas ao passar o limiar da porta, vendo‑o tão absorto nos livros, dava meia volta e deixava‑o para outro dia. Mas o tal dia não chegou.

Para Agostinho era a ocasião de abrir bem os olhos da sua inteligência e de estabelecer as fronteiras precisas entre o certo e o incerto. O importante era que ele se tivesse dado conta que os maniqueus atribuíam à Igreja Católica aquilo que ela não professava. As Escrituras diziam uma coisa e os seus adversários faziam‑na dizer outra. Nem a Bíblia nem a Igreja concebiam Deus em forma humana. Pelo contrário, o homem é que foi criado à imagem de Deus. Não há nada na Escritura que seja absurdo, imoral ou indigno de Deus. Somente há que entender o texto. É preciso levantar o véu místico e interpretá‑lo em sentido espiritual, como fazia Ambrósio.

Agostinho aprendeu bem a lição, se bem que, com medo de um novo descalabro, não ousava decidir‑se. "Costuma acontecer, escreverá ele próprio, que quem tenha caído nas mãos de um mau médico, desconfie mesmo de um bom" (VI, 4, 6). Agostinho, enganado pelos maniqueus, temia cair de novo nas mãos de outros aldrabões.

O resultado disto foi a aceitação das Escrituras, da sua autoridade e da autoridade da Igreja, que as conservava. Acima de tudo, Agostinho aceita a fé. Uma da causas da sua queda no erro maniqueísta tinha sido a pretensão de tudo querer explicar pela razão. Entre a razão e a fé tinha escolhido a primeira. Agora tinha compreendido que estava fora do bom caminho. Colocar o dilema: a razão ou a fé, é um erro. O mais importante é compreender mas, em primeiro lugar, é preciso crer. Começa crendo e acabarás compreendendo.

Tinha superado o racionalismo. No entanto, as dúvidas de Agostinho subsistem. Adiante se verá.

domingo, 6 de março de 2011

DA CAPITAL DA ÁFRICA À CAPITAL DO IMPÉRIO

Procurava uma falsa felicidade

Muitas vezes, em Cartago, Agostinho teria visto os navios zarparem rumo a Roma. Em mais de um ocasião ele teria sonhado em fazer‑se ao mar, vencendo o horror que sentia àquela enorme mole de água, personificação do mal. Para além do perigo estava Roma, a grande Roma, a capital do império. Acostumado ao triunfo, deve ter pensado que os seus dotes deveriam ter ali mais ressonância; os seus méritos podiam chegar com mais facilidade aos ouvidos do imperador; as portas das honrarias eram mais numerosas e era preciso estar presente para poder entrar por elas. Portas que conduziam igualmente às riquezas. Que importância tinha que fosse africano? Não tinha triunfado ali Hiério, provinciano como ele, sírio, para ser mais exato?

Os seus amigos não devem ter tido de se cansar muito para o convencerem a abandonar Cartago. Não lhe faltavam motivos. Não partiu dele a idéia de abandonar África. Foram os amigos que o impeliram a mudar‑se para Roma e a ensinar o que ensinava em Cartago. Ali ser‑lhe‑ia mais fácil enriquecer. Mas, se bem que isto também influísse no seu ânimo, não foi, no entanto, a razão principal que o decidiu a seguir os desejos dos seus amigos. Outras coisas pesaram mais na sua mente. Decepcionado e quase desvinculado interiormente do maniqueísmo, encontrava‑se contrafeito no cenário do seu proselitismo. Além disso, tinha ouvido dizer que os estudantes romanos tinham melhores costumes e eram mais disciplinados; que não entravam de roldão nas aulas dos que não eram seus mestres, nem saiam delas de forma inesperada. Os costumes que não quis aceitar como estudante, também não os queria passar como professor. Por isso agradou‑lhe a idéia de ir para Roma. Depois de nos ter narrado estas coisas, Agostinho, com uma frase digna de si, reflete sobre tudo isto: "Eu, que em Cartago detestava uma miséria verdadeira, procurava em Roma uma falsa felicidade" /V, 8, 14).

Mônica opôs-se a tal viagem e Agostinho tem de se servir de uma mentira para se desembaraçar dela. Enquanto ela vai rezar a uma capela perto do porto, ele finge ir despedir‑se de um amigo, que esperava vento favorável para se fazer ao mar. Quem, de fato, se faz ao mar é ele próprio. Passaram os anos e Agostinho continuará a sentir tal mágoa de ter enganado a sua mãe que na manhã seguinte sentiu profundamente a punhalada da traição, que tentou lavar com súplicas e lamentos, "Assim menti a minha mãe, e a que mãe!" (V, 8, 15).

Lamentos e súplicas que não foram em vão. Agostinho atribui‑lhes o terem‑lhe salvo a vida, evitando‑lhe assim uma morte afastada dos braços de Deus. A sua saúde ressentiu‑se ao chegar a Roma. Caiu gravemente doente, mas desta vez, não pediu o batismo, como tinha feito em circunstâncias idênticas quando era criança.

À medida que passava o tempo, Agostinho estava cada vez mais desiludido a respeito dos maniqueus, apesar deles o terem recebido e de se ter hospedado em sua casa. Sentia‑se defraudado. Tinham‑lhe prometido a verdade e deram‑lhe um conjunto de fábulas mais ignominiosas do que quanto punham na boca dos católicos. Oferecendo razões exigiam‑lhe credulidade. Não é para estranhar que já não defendesse o maniqueísmo com o entusiasmo de outros tempos. Mas a amizade que o unia a membros da seita tornava‑o preguiçoso para procurar a verdade noutro lugar. Pensar na Igreja Católica, da qual os maniqueus o tinham separado, era uma possibilidade posta de lado. E a sua posição era muito compreensível, considerando que o que ele pensava da fé católica estava muito longe da verdadeira realidade.

Com dúvidas potentes acerca do maniqueísmo e com uma desconfiança total na Igreja Católica, Agostinho abandona‑se ao cepticismo. Que se pode afirmar com certeza, se em toda a parte encontrei o erro? Melhor será abster‑se de fazer afirmações, duvidar de tudo; assim se evitará todo o equívoco.

Agostinho continuava exercendo em Roma a sua atividade de professor de retórica. Se os estudantes tinham sido um dos motivos que o levaram a deixar Cartago, estes mesmos tornariam ingrata a sua estadia na capital do império. Muito depressa teve conhecimento de que, em Roma, sucediam coisas que não tinha tido de agüentar na capital africana. Era certo, como lhe tinham assegurado, que não havia aqueles alvoroços provocados pelos estudantes. Mas, não seria mais desagradável ainda, que os alunos não lhe pagassem o devido pelo seu trabalho? Quando chegava a hora de pagar punham‑se de acordo entre eles e passavam para outro professor. Isto fez com que também não se sentisse bem.

Depressa se lhe deparou a ocasião de abandonar Roma. De Milão, então residência do Imperador, tinham pedido ao Perfeito da urbe, um professor de Retórica. Os seus amigos maniqueus movimentaram‑se para que ele fossa designado. Assim aconteceu depois de um exame. Sem dúvida ao Perfeito Símmaco, pagão que se esforçava por restaurar a religião dos seus antepassados, deve ter‑lhe parecido uma solução muito aceitável: um anti‑católico que podia fazer frente e sombra ao indomável Ambrósio.

E pôs-se a caminho de Milão. Era o outono do ano de 384.