Dos escritos de Agostinho

DEUS É A VIDA DE TUA ALMA

“Tua alma morre perdendo a sua vida. Tua alma é a vida do teu corpo, e Deus é a vida de tua alma. Do mesmo modo que o corpo morre quando perde a sua alma, que é sua vida, assim a alma morre quando perde a Deus, que é sua vida. Certamente, a alma é imortal, e de tal modo é imortal, que vive mesmo estando morta. Aquilo que disse o Apóstolo da viúva que vivia em deleites pode-se dizer também da alma que tem perdido o seu Deus: que vivendo está morta”.

(Com. Ev. de João, 47, 8)

TOMA E LÊ

Atira‑te a Ele; Ele não se afastará para que não caias

Agostinho tinha encontrado a Deus e o meio para chegar a Ele. As suas aspirações serão, portanto, outras. O que desejava não era já estar mais certo de Deus, mas sim, mais unido a Ele. Descoberta a meta procurava o modo de percorrer o caminho que conduz a ela. Teve uma inspiração: dirigir‑se ao sacerdote Simpliciano, que considerava um santo servo de Deus. A ele poderia contar todas as suas aflições que não tinha podido contar a Ambrósio. Também ele lhe poderia indicar a maneira mais adequada de andar pelas sendas do Senhor.

Colocava‑se‑lhe o problema de escolher a forma de vida para o futuro. Sabia que podia servir a Deus de múltiplas maneiras dentro da Igreja. Qual escolher? A mais perfeita? Algumas correntes o prendiam. "Estava descontente ‑ escreve nas Confissões ‑ com o que estava a fazer. Era para mim um fardo muito pesado. Já não tinha, como antes, o afã das riquezas nem a esperança da glória, que me ajudassem a suportar aquela servidão. Estas coisas já não causavam deleite, uma vez conhecida a doçura e a formosura de Deus. Mas continuava ainda tenazmente acorrentado à mulher. O Apóstolo não me proibia o casamento, mas exortava‑me a algo melhor, desejando com ardor que todos os homens fossem como ele. Eu, fraco como era, escolhi a vida mais suave. (VIII, 1, 2).

Aproxima‑se de Simpliciano que o recebe paternalmente. Como um avô, conta‑lhe histórias da sua juventude, histórias que tinham causado grande sensação no seu tempo. O grande orador Mário Vitorino, tinha‑se convertido e preferiu abandonar a sua carreira antes de renegar a Cristo. A emoção repete‑se, agora, no interior de Agostinho. Depois de escutar a narração da boca do ancião, arde em desejos de o imitar. Agora já vê com clareza e não lhe servem, portanto, as desculpas de antes, para não se entregar a Deus. Mas continuava agarrado à terra e recusava alistar‑se nas hostes de Deus ‑ são palavras suas ‑ e temia ver‑se liberto daquelas cadeias, tanto quanto temia ver‑se preso por elas. "O Senhor fazia‑me ver a verdade e convencido dela não tinha absolutamente nada a responder, a não ser palavras preguiçosas e sonolentas: «Agora, agora mesmo; deixa‑me um pouco», mas aquele «agora, agora» não chegava nunca; e aquele «deixa‑me um pouco» ia sendo muito" (VIII, 15, 12).

Noutra ocasião recebe a visita de um oficial do palácio, Ponticiano, africano como ele e Alípio, que naquela altura o acompanhava. Encontra‑o com o livro das Cartas do apóstolo S. Paulo. E o visitante a contar‑lhe o caso de Santo Antão, célebre monge do Egito. Apesar do seu nome andar já de boca em boca, Agostinho e os seus companheiros nunca tinham ouvido falar dele, coisa que surpreende Ponticiano. Depois fala‑lhe da multidão de cristãos, que já então povoavam os mosteiros, "do perfume divino das suas virtudes", assunto sobre o qual eles nada sabiam. Nem sequer sabiam que na própria cidade de Milão, ainda que nos arrabaldes, havia um mosteiro, "povoado de bons irmãos", e governado por S. Ambrósio (VIII, 6, 14‑15).

A conversa prolonga‑se. Agostinho e o seu companheiro ouvem também como os servidores da corte imperial, residentes em Tréveris, se tinham entregue a Deus. É o início de um novo combate, mais violento no seu interior. "Então, ‑ relata ele ‑ produziu‑se dentro de mim uma grande luta, que eu próprio tinha provocado. Com o rosto e a alma perturbados, aproximei‑me de Alípio e, aos gritos, disse‑lhe: «Que é isto que nos acontece? Que é isto que temos ouvido? Levantam‑se os ignorantes e conquistam o céu e nós, com a nossa ciência, sem coração, chafurdamos na carne e no sangue! Vamos ter vergonha de os seguir, apenas porque nos ultrapassaram? Teremos tão pouca vergonha para nem sequer ir atrás deles? » Se não são exatas, pelo menos foram parecidas, as palavras que pronunciei e entristecido, afastei‑me de Alípio que, assombrado me olhava e calava. Via que eu não falava como era meu costume e, mais que as palavras que dizia, era a fronte, a face, os olhos, a cor e o tom da voz, o que demonstrava o estado em que se encontrava a minha alma" (VIII, 8, 19).

E afastou‑se para a horta de sua casa, para ali, só, ser ele a única testemunha da batalha que se travava no seu coração. Alípio, pé ante pé, foi atrás dele. Como é que o ia deixar sozinho naquele estado. Ambos se sentaram o mais longe de casa que lhes foi possível.

Uma vez mais serão as próprias palavras de Agostinho a descrever a sua situação naquela altura. "Retinham‑me coisas frívolas e sumamente vãs, antigas amigas minhas. Puxavam pela veste da minha carne e diziam‑me baixinho: «Vais deixar‑nos? A partir de agora já não estaremos contigo? Desde este momento já não te será lícito isto ou aquilo?» E que coisas me sugeriam, Deus meu, no que eu chamo isto ou aquilo! Que coisas me sugeriam Deus meu! Que a tua misericórdia as afaste do teu servo! Que sujidades me sugeriam! Mas já não as ouvia todo o meu ser, apenas uma parte. Não se punham já diante de mim para me tolher o passo, mas sim, bichanavam nas minhas costas e quando me afastava, beliscavam‑me como que às escondidas, para que voltasse os olhos e as visse. Mas atrasavam‑me, porque hesitava em arrancar‑me e sacudi‑las e passar de um salto para onde o Senhor me chamava. O costume, que sempre exerce violência, continuava a dizer‑me: «Pensas tu poder viver sem estas coisas? »."

Mas já o dizia com pouco entusiasmo. Naquele lugar, para onde eu tinha dirigido o meu olhar, desvendava‑se‑me a beleza da castidade, serena e alegre sem leviandade. Abria para mim, para me receber e abraçar, as suas piedosas mãos, cheias de múltiplos bons exemplos: numerosas crianças, gente jovem e de todas as idades, veneráveis viúvas e anciãs virgens. Em todos eles resplandecia a castidade, que não é estéril, mas mãe fecunda de filhos... Ela troçava de mim e com humor alentava‑me dizendo: «Não poderás tu o mesmo que estes e estas? Acaso estes e estas podem por si mesmo e não no Senhor seu Deus? O Senhor teu Deus entregou‑me a eles. Porque te apoias em ti se não podes ter‑te de pé? Atira‑te a Ele, não temas; não se afastará para que tu não caias; atira‑te seguro que Ele te receberá e te curará». Senti eu grande vergonha de mim mesmo porque ainda sentia o murmúrio daquelas coisas frívolas e continuava indeciso e suspenso... Mas Alípio, colado a meu lado, esperava em silêncio o desenlace daquela agitação desacostumada em mim" (VIII, 26, 27).

Agostinho necessitava estar completamente só. Levanta‑se de onde estava Alípio, porque a solidão lhe parece mais adequada para chorar e retira‑se para longe, onde nem a sua presença o estorve. Deita‑se sob uma figueira, dá rédea solta às lágrimas e "saltaram dois rios dos meus olhos...". Perguntava‑se com voz lastimosa: "Até quando? Até quando direi: amanhã, amanhã? Porque não agora? Porque não ponho neste momento fim à minha torpeza?"(VIII, 12, 28).

O momento é decisivo. As conseqüências são imensas, não só para Agostinho, mas para a Igreja. Agostinho está quase a romper com todos os laços e a deixar‑se cair nas mãos de Deus. Mas deixemos que sejam as suas próprias palavras a contarem‑nos: "Enquanto dizia isto, o meu coração chorava com amarga contrição. De repente, duma casa vizinha, ouço uma voz, não sei se de menino ou menina, que dizia cantando e repetindo muitas vezes: «Toma e Lê, Toma e Lê». Reprimidas as lágrimas, levantei‑me. Interpretei aquele canto como a voz de Deus que me convidava a abrir o livro e a ler o primeiro capítulo que encontrasse... Por isso voltei a toda a pressa ao lugar onde Alípio estava sentado, onde tinha deixado o livro que continha as Cartas do apóstolo S. Paulo. Agarrei‑o, abriu‑o e li, em silêncio, o primeiro capítulo que caiu sob os meus olhos: Não em comida e na embriaguez, não em desonestidade e dissoluções, não em contendas e ciúmes. Revesti-vos antes do Senhor Jesus Cristo e não vos preocupeis com a carne para lhe satisfazerdes os apetites (Rm., 13, 13‑14). Não quis ler mais nem foi necessário porque mal li esta frase difundiu‑se sobre o meu coração uma luz de segurança e dissiparam‑se as trevas da dúvida."

Então, pondo o dedo ou não sei que outra marca, fechei o livro e já com rosto sereno, contei tudo a Alípio. Por sua vez ele disse‑me o que se estava a passar consigo sem que eu o suspeitasse. Pediu‑me para ver o que eu tinha lido. Mostrei‑lho e ele continuou a ler um pouco mais para diante. O texto continuava com estas palavras: Recebei o débil na fé. Aplicou‑o a si próprio e indicou‑mo tranqüilo e sem tardar associou‑se à minha decisão e propósito, que estava perfeitamente de acordo com os seus costumes, em que desde há muito se me tinha adiantado" (VIII, 12,30).

Depois vão ter com Mônica e contam‑lhe o sucedido. Como é fácil de compreender ela transborda de alegria.

Tal cena tem lugar em finais de Julho ou princípios de Agosto do ano de 386. Agostinho contava 32 anos. Ia começar uma nova etapa da sua vida.

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