Dos escritos de Agostinho

DEUS É A VIDA DE TUA ALMA

“Tua alma morre perdendo a sua vida. Tua alma é a vida do teu corpo, e Deus é a vida de tua alma. Do mesmo modo que o corpo morre quando perde a sua alma, que é sua vida, assim a alma morre quando perde a Deus, que é sua vida. Certamente, a alma é imortal, e de tal modo é imortal, que vive mesmo estando morta. Aquilo que disse o Apóstolo da viúva que vivia em deleites pode-se dizer também da alma que tem perdido o seu Deus: que vivendo está morta”.

(Com. Ev. de João, 47, 8)

sábado, 15 de outubro de 2011

20 lições para conhecer a Santo Agostinho

 

A PAZ DE CASSICIACO.A DOR DA ORFANDADE

(Aos 35 anos de idade)

Depois das angústias pelas quais acabava de passar, Agostinho sente a necessidade de recolher-se no silêncio e na paz. Um de seus amigos, Verecundo, que ensina gramática em Milão e do qual Nebrídio é auxiliar, põe à sua disposição a propriedade de Cassiciaco. Sem vacilar, aceita este generoso oferecimento e, quando fica livre de seus compromissos oficiais como professor, se retira ao campo.

Reúne junto a si, em Cassiciaco, um grupo de africanos, entre eles, seu irmão Navígio e seus primos Rústico e Lastidiano. Além deles, há dois jovens, Licêncio e Trigêncio, que foram seus alunos em Milão e que desejam seguí-lo. Alípio, também, é claro. Adeodato, o filho de Agostinho, é o mais jovem de todos e já começa a dar provas de uma inteligência precoce.

Juntamos também a nós Adeodato, filho do meu pecado, a quem tinhas dotado de grandes qualidades. Com quinze anos superava em talento a muitas pessoas maduras e eruditas” (Conf. IX, 6)

E junto a estes jovens, a presença de Mônica dava ao grupo de Cassiciaco um ambiente familiar. Ela é quem prepara as refeições e que assegura o bem estar de todos. É, verdadeiramente, a mãe de toda esta juventude; e, cada vez que aparece no grupo, é recebida com respeitosa alegria. Não falta o trabalho material, já que a propriedade de Verecundo é enorme. Normalmente, é Mônica quem dirige estes trabalhos. O principal objetivo deles, contudo, é o estudo, as discussões filosóficas e a oração.

Neste retiro de Cassiciaco, Agostinho escreve suas primeiras obras filosóficas: “Sobre a vida feliz”; “Contra os acadêmicos”; “Sobre a ordem”.

Ao aproximar-se a Quaresma do ano 387, todos deixam Cassiciaco para regressar a Milão. Agostinho e seu filho Adeodato têm que preparar-se para receber o batismo, que vai ser administrado por Ambrósio.

Não conhecemos os sentimentos de Agostinho durante as semanas que precederam seu batismo. Ele guardou, a respeito disto, absoluto silêncio. Em suas “Confissões”, que tantos detalhes dá de sua vida, sobretudo relativo à sua crise e conversão, nada diz relacionado aos dias que antecederam seu batismo. Resume numa frase suas impressões recebidas no momento do batismo: “Fomos batizados, e desapareceu qualquer preocupação quanto à vida passada” (Conf. IX, 6)

Tudo isto aconteceu na noite de 24 para 25 de abril do ano 387. Durante sua preparação para o batismo, escreveu outras duas obras: “Sobre a imortalidade da alma”; “Sobre a música”.

Uma vez batizados, Agostinho e seus amigos já não têm nada a fazer em Milão. O propósito de Agostinho é formar uma comunidade de irmãos entregues à perfeição cristã. Suas posses de Tagaste podiam servir-lhe para esta finalidade, e decide dirigir-se para lá.

Deve ter sido doloroso despedir-se do bispo que os havia atendido com solicitude paternal, do generoso Verecundo, que não pode receber com eles o batismo, de Teodoro, a quem dedicou o livro “Sobre a vida feliz”, e de tantos outros que lhe haviam demonstrado um afeto especial. No final do verão (setembro), todo este grupo se vê reunido em Óstia, porto próximo de Roma, onde vão embarcar para a África.

Como as ocasiões de atravessar o mar não eram muito freqüentes, tiveram que deter-se alguns dias em Óstia, alojando-se em casa de uma família cristã.

Óstia era uma cidade muito importante. Uma multidão cosmopolita, de diferentes línguas e costumes, se agitava em suas ruas, que se enchiam de um barulho ensurdecedor. Barcos carregados de azeite, trigo e todo tipo de mercadorias, enchiam o porto. Nos navios se escutavam as vozes estranhas dos marinheiros.

No centro desta cidade agitada e barulhenta, Agostinho e sua mãe saboreavam a oração e a contemplação das coisas de Deus. Apoiados, um dia na janela que dava para o jardim da casa, mãe e filho se entretinham comentando a grandeza de se poder unir a Deus na eternidade.

Durante esta conversa das coisas divinas, buscando, juntos, a luz e a verdade e pensando como seria a vida dos santos, de repente se sentiram em êxtase e, imensamente felizes, usufruíram da doçura da presença do Senhor. Que viram naquele êxtase? Ninguém sabe. Mãe e filho, porém se sentiram voar para Deus e chegaram até o céu. Esta cena passou para a história agostiniana com o nome de O ÊXTASE DE ÓSTIA.

Ao aproximar-se o dia de sua morte -dia que só Tu conhecias e nós ignorávamos- sucedeu, creio que por tua vontade e de modo misterioso como costumas fazer, que ela e eu nos encontrássemos sozinhos, apoiados a uma janela, cuja vista dava para o jardim interno da casa onde morávamos, em Óstia Tiberina. afastados da multidão, procurávamos depois das fadigas de uma longa viagem, recuperar as forças, tendo em vista a travessia marítima. Falávamos a sós, muito suavemente, esquecendo o passado e avançando para o futuro. Tentávamos imaginar na tua presença, tu que é a verdade, qual seria a vida eterna dos santos... E subíamos ainda mais ao interior de nós mesmos, meditando, celebrando e admirando as tuas obras. E chegamos assim ao íntimo de nossas almas. Indo além, atingindo a região da inesgotável abundância...

Assim falávamos, se bem que de modo e com palavras diversas. No entanto, Senhor, Tu sabes como nesse dia, durante esse colóquio, o mundo, com todos os seus prazeres, perdia para nós todo o seu valor, e minha mãe me disse:

- Meu filho, nada mais me atrai nesta vida; não sei o que ainda estou fazendo aqui, nem por que ainda estou aqui. Já se acabou toda esperança terrena. Por um só motivo desejava prolongar a vida nesta terra: ver-te católico antes de eu morrer. Deus me satisfez amplamente, porque te vejo desprezar a felicidade terrena e servi-lo. Por isso, o que é que estou fazendo aqui?” (Conf. IX, 10, 26)

Talvez Mônica tivesse o pressentimento de sua morte próxima. De qualquer forma, apenas alguns dias depois de haver deliciado e contemplado, durante um abrir e fechar de olhos, as coisas eternas, ela caiu gravemente enferma.

“Não me lembro bem o que foi que lhe respondi. Passados, porém, cinco dias ou pouco mais, ela caiu de cama com febre. Durante a doença, perdeu os sentidos, por alguns instantes não reconhecia os presentes, Acorremos logo, e ela imediatamente, voltou a si. Olhou para o meu irmão e para mim ao lado e, como se procurasse alguma coisa, perguntou-nos:

- onde é que estava?

Depois, notando o nosso espanto e tristeza, acrescentou:

- Enterrareis aqui a vossa mãe.

Permaneci mudo procurando conter as lágrimas. Meu irmão, porém, proferiu algumas palavras, mostrando o desejo de vê-la morrer na pátria e não em terra estranha. Minha mãe repreendeu-o com olhar severo por pensar de tal maneira. E disse aos dois:

- Enterrai este corpo em qualquer lugar, e não vos preocupeis com ele. Faço-vos apenas um pedido: lembrai-vos de mim no altar do Senhor, seja qual for o lugar onde estiverdes...

Pelo nono dia de doença, aos cinqüenta e seis anos de idade, quando eu tinha trinta e três, essa alma fiel e piedosa libertou-se do corpo. Fechei-lhe os olhos e uma tristeza infinita invadiu-me a alma. Estava prestes a transbordar em torrentes de lágrimas. Contudo, por um violento ato de vontade, meus olhos as absorveram até secar-lhes a fonte. Eu me senti mal ao fazer tal esforço. Quando ela exalou o último suspiro, o jovem Adeodato prorrogou em soluços, mas, instado por nós, calou-se. Assim também eu, naquele resto de infância que tendia a manifestar-se em lágrimas, também eu calava, vencido pela voz do adulto, pela voz de espírito. De fato, não nos parecia justo celebrar o funeral com lamentos e choros, pois essas demonstrações servem usualmente para deplorar a morte como infelicidade ou como aniquilamento total, ao passo que essa morte, não era uma desgraça nem era para sempre...

Quando seu corpo foi levado, fomos à sepultura, e de lá voltamos sem chorar. Nem mesmo chorei durante as orações, quando oferecemos por ela o sacrifício de nossa redenção, com o corpo colocado já ao lado do túmulo, antes do enterro, segundo era costume do lugar. Nem durante essas preces chorei.

No entanto, durante o dia todo, me oprimia uma dor íntima e, com o coração perturbado, eu te suplicava, quanto podia, que aliviasses meu sofrimento. E Tu não o fizeste... Pensei então tomar um banho, pois ouvira dizer que o nome “banho” vem do grego “balanion”, porque afasta os sofrimentos da alma. Confesso também isso à tua misericórdia, ó Pai dos órfãos; confesso que sai do banho como estava antes, sem conseguir expulsar do coração essa amarga tristeza,. Depois adormeci. Quando acordei, a dor era bem menor... Depois, pouco a pouco, voltava a recordar os primeiros pensamentos sobre a tua serva, seu comportamento piedoso para contigo... e queria ainda chorar diante de Ti... Afinal, não mais reprimi as lágrimas, que correram à vontade; e sobre elas pousei o coração que nelas encontrou repouso” (Conf. IX, 11 e 12)

Atualmente, em Óstia, há uma pequena capela que, segundo a tradição, aponta o lugar onde estava a casa que habitavam Mônica e Agostinho. Este lugar é glorioso e venerável, porque foi testemunha da morte admirável de uma santa e da dor religiosa e humana de um dos maiores homens que brilharam na história da Igreja e da humanidade.

 

Santa Mônica, mãe de Agostinho

Santa Mônica nasceu no ano 322, de pais católicos, provavelmente em Tagaste. Foi educada com esmero e piedosamente por uma criada já idosa, muito bondosa e fiel, estimada da família por sua prudência e devoção. Santa Mônica foi batizada logo. Sempre levou uma vida irrepreensível quanto aos costumes e piedade. Quando ficou adulta, casou-se com Patrício, pagão ainda, natural de Tagaste. Obedeceu sempre a seu marido como a seu senhor. Empenhou-se em conquistá-lo para Deus com exemplos e bons costumes. Tinha o dom da concórdia e da paz por sua profunda união com Deus. Este dom rendeu ótimos frutos de paciência. Quando Agostinho tinha 16 anos, no ano 370, Patrício estava inscrito no número dos catecúmenos. Morreu, já batizado, no ano seguinte. Santa Mônica estava, então com 40 anos de idade.

Como viúva, levou uma vida casta e sóbria, praticando a esmola, a oração pelos pecadores, o serviço à Igreja e aos servos de Deus. Todos que a conheciam louvavam e bendiziam a Deus por sua grande virtude e bons exemplos.

Seu fervor deve ter sido extraordinário, porque mereceu a veneração e o respeito de um grande santo: Santo Ambrósio. Ia à igreja duas vezes ao dia, de manhã e de tarde, sempre submergida na oração interior.

Finalmente, praticou, ao pé da letra, o que ensinou o Apóstolo São Paulo sobre as viúvas em sua primeira epístola a Timóteo (5, 9-10)