Dos escritos de Agostinho

DEUS É A VIDA DE TUA ALMA

“Tua alma morre perdendo a sua vida. Tua alma é a vida do teu corpo, e Deus é a vida de tua alma. Do mesmo modo que o corpo morre quando perde a sua alma, que é sua vida, assim a alma morre quando perde a Deus, que é sua vida. Certamente, a alma é imortal, e de tal modo é imortal, que vive mesmo estando morta. Aquilo que disse o Apóstolo da viúva que vivia em deleites pode-se dizer também da alma que tem perdido o seu Deus: que vivendo está morta”.

(Com. Ev. de João, 47, 8)

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

20 lições para conhecer a Santo Agostinho

14.- O NASCIMENTO DA ORDEM DOS EREMITAS DE SANTO AGOSTINHO

(As Uniões de 1244 e 1256)

A origem da ORDEM DOS EREMITAS DE SANTO AGOSTINHO é muito obscura. Tudo quanto se sabe está cheio de lendas e narrações pouco fundamentadas. O que se sabe deve-se à história geral da época. Muito pouco é o que sabemos sobre os eremitas e, mais especificamente de suas casas. As investigações históricas, no entanto, avançam lentamente e nos permitem chegar às seguintes conclusões:

1. A formação da Ordem foi lenta e difícil;

2. Não está direta nem indiretamente ligada às fundações de Santo Agostinho;

3. Foi resultado da união de vários grupos eremíticos independentes;

4. Nessa união, a Santa Sé teve uma influência decisiva, especialmente através do cardeal Annibaldi.

 

A Primeira União de 1244

Os séculos XII e XIII acordaram a Igreja com ideias de renovação cristã. Muitos foram os cristãos que sentiram em suas vidas os desejos de seguir mais de perto os exemplos de Jesus e dos primeiros cristãos. Entre eles alguns se retiraram a lugares afastados para levar um estilo de vida eremítico onde a contemplação constituía uma forma fundamental do encontro com Deus. Diversas regiões e Itália, França e Alemanha ficaram cheias de muitos conventos deste tipo.

Nestes grupos, unidos pelo fato de serem eremitas, que seguiam observâncias distintas e até distintas Regras, temos que ver a origem da Ordem de Santo Agostinho. Deles saiu a iniciativa de pedir ao Papa Inocêncio IV, que lhes concedesse viver conforme a Regra de Santo Agostinho, unindo a todos com o fim de fundar uma Ordem.

Diante da perspectiva de com a união criar a força, o Papa viu com bons olhos a proposta e aceitou a petição. Ordenou que todos os eremitas residentes na região italiana de Toscana seguissem a Regra e o estilo de vida de Santo Agostinho no presente e no futuro. Mais ainda, qualquer norma posterior ou as Constituições que pudessem surgir no futuro não podiam estar em contradição com aquele estilo de vida. Assim o estabeleceu o Papa nos documentos titulados Incumbit nobis e Praesentium vobis. Era o ano 1243.

A primeira reunião dos representantes daqueles grupos de eremitas, dois ou três de cada convento, ou seja, o momento da fundação da Ordem propriamente falando, teve lugar em Roma no mês de março de 1244. Presidia o Cardeal Ricardo degli Annibaldi, encarregado pelo Papa de dirigir os primeiros passos da Ordem nascente.

Posteriores documentos do Papa foram definindo com maior precisão a fisionomia e o caráter da Ordem. No mesmo mês da fundação concedeu-se aos sacerdotes poder confessar e pregar ao Povo de Deus, o que quer dizer que se convertia em uma Ordem Apostólica, sem abandonar o elemento contemplativo que lhes tinha levado a buscar a Deus na solidão.

O mesmo Papa foi tirando do caminho os impedimentos que impediam a perfeita convivência entre os membros dos distintos grupos. Como alguns deles tinham professado a Regra de São Bento, o Papa lhes dispensou disso assim como das outras tradições próprias em contraste com o novo modo de viver conforme a Regra recém professada.

Pouco tempo depois obtiveram os privilégios que tinham sido concedidos às outras Ordens. O Papa dava proteção às casas da Ordem; libertou-as de alguns impostos; declarou-as isentas da jurisdição dos bispos em algumas coisas, etc. Estes privilégios, concedidos no início só aos religiosos agostinianos que viviam na Toscana, estenderam-se um ano mais tarde às outras partes da Ordem que começava a difundir-se com força.

A Santa Sé pôs toda a sua força em protegê-los e ajuda-los a ultrapassar as não poucas dificuldades daqueles primeiros momentos. Ainda mais, o mesmo Papa Inocêncio IV ordenou aos bispos que lhes dessem apoio: obrigou-lhes a respeitar os privilégios que tinham sido concedidos pelo Papa. Seu sucessor, Alexandre IV, teve o mesmo proceder.

 

A Grande União de 1256

Em março de 1256, por iniciativa do Papa, teve lugar em Roma o que se tem chamado a Grande União. Com este nome conhecem os historiadores a união de outros vários grupos de eremitas à já existente Ordem de Santo Agostinho. Num primeiro momento, o Papa Alexandre IV, somente queria unir aos eremitas da Ordem de São Guilherme, os únicos da Toscana que tinham sido excluídos da união anterior. Mas foram vários os grupos aos que se estendeu esta união.

No total os grupos que tomaram parte desta união são os seguintes:

EREMITAS DE SÃO JOÃO BOM (1169-1249)

João Bom nasceu em Mântua, Itália, por volta do ano 1169. Quando jovem, viveu desordenadamente, percorrendo campos e cidades como comediante. Ao redor do ano 1210, uma enfermidade o induziu a mudar de vida. Retirou-se ao campo para viver só, possivelmente em 1217. Ai foi reunindo discípulos com os quais começou a partilhar a vida penitente dos eremitas da época. Não tinham regra nem vínculos jurídicos especiais. Esta forma de vida, porém, um tanto livre e anárquica, estava em desacordo com as normas da Igreja que, empenhada na organização e sobrevivência da vida religiosa, ordenava, a todos os fundadores de novas casas religiosas, adotassem uma das regras e constituições já existentes.

João Bom sentiu a necessidade urgente de dar estabilidade a sua fundação. Escolheu então a Regra de Santo Agostinho e impôs o hábito de eremita a seus companheiros. Todos começaram a viver “regularmente”, ou seja, de acordo com uma regra já escolhida. Isto ocorreu por volta do ano de 1225. Seu estilo de vida variou muito pouco: silêncio, jejuns prolongados, roupa pobre, repetição de orações vocais... Andavam descalços e viviam de esmolas. Nada disto nos há de estranhar, pois esse era o modo como viviam os eremitas da época.

Uma nota curiosa: traços agostinianos não apareciam em nenhuma parte. Adotaram a Regra de Santo Agostinho simplesmente porque tinham que adotar uma dentre as já existentes; não, porém, por conhecer e seguir o santo bispo de Hipona. O verdadeiro mestre e fundador continuava sendo João Bom, que tinha fama de líder e santo.

Como quase todos os membros desta comunidade eram leigos, o apostolado ficava em um segundo lugar. Pouco a pouco, porém, foram entrando sacerdotes ou eremitas leigos eram ordenados, com os quais o apostolado adquiriu grande importância. O próprio João Bom, ao ordenar-se sacerdote, foi um grande apóstolo.

A fundação cresceu rapidamente até que João Bom, já velho, analfabeto e enfermo, teve que renunciar à direção da comunidade que, no ano de sua morte (1249), contava com mais de 15 casas no norte da Itália. Em 1249, a comunidade se dividiu em dois grupos devido a diferenças de opiniões e critérios; porém, voltou a se unir em 1252, preparando-se assim para a GRANDE UNIÃO DE 1256.

A Ordem celebra a festa de São João Bom no dia 16 de outubro, junto com a de São Guilherme, o Eremita.

EREMITAS DE BRÉTTINO

Perto dali, na localidade de Bréttino, a uma distância de 60 km, mais ou menos, e na mesma época, nasce outro grupo, com o propósito de lutar contra os vícios da carne e alcançar a vida eterna. Nada se sabe do fundador, nem origem, número, posição social e primeiros passos destes solitários. Em 1227, dispunham já de uma igreja, dedicada a São Brás, com regra e organização sob a proteção de São Pedro. Nem sua regra, nem seus costumes, porém, eram aprovados pela Igreja. Por isso tiveram que acolher a Regra de Santo Agostinho, a quem, como os anteriores pouco conheciam. Em 1235, já possuíam Constituições e organizações próprias, aprovadas pela Santa Sé. Tinham algum ato comum, porém, o centro de sua vida era ocupado pelo ascetismo, manifestado no hábito humilde, na pobreza particular e comum e nos jejuns severos e prolongados.

A pobreza era muito rígida. Viviam do trabalho. Nos momentos de escassez, pediam esmola, como os demais eremitas da época. A este respeito, tiveram problemas com os franciscanos, pois, como vestiam quase o mesmo hábito que estes os fieis os confundiam e lhes davam esmolas achando que eram destinadas aos eremitas de São Francisco. Estes se queixaram à Santa Sé, a qual solucionou o problema, dando-lhes hábitos diferentes para ambos.

Assim como outros movimentos eremíticos da época, também os Bretinenses foram evoluindo para uma forma de vida mais apostólica e comunitária, menos eremítica. Por volta de 1238, já estavam muito expandidos pelo norte da Itália. Em 1243 a Santa Sé os aprovou como comunidade apostólica juridicamente organizada, permitindo a entrada de leigos e sacerdotes na Ordem. Em meio a este florescimento, chegaram à GRANDE UNIÃO DE 1256.

GUILHERMITAS

Devem seu nome a São Guilherme, o Grande, morto em 1157, sobre o qual se teceram muitas lendas. Só se sabe que era um militar francês e que, no início de sua conversão em 1145, se retirou para Pisa, em primeiro lugar, e logo em seguida para Malavalle (Itália), onde levou uma vida penitente e solitária.

No momento de sua morte só contava com dois discípulos, um dos quais, Alberto, se encarregou de cuidar de seu sepulcro, transformado em lugar de peregrinação pela fama das virtudes e milagres detidos pelo santo.

Logo se foram reunindo mais discípulos ao redor dos dois que havia deixado seu fundador, até que a nova ordem começou a estender-se fora da Itália, pela França, Alemanha, Hungria e outros países. O Papa Gregório IX lhes impôs a Regra de São Bento em 1238. De forma diferente dos outros grupos, os guilhermitas não quiseram dedicar-se ao apostolado nas cidades nem a pedir esmola. Apesar de terem a Regra de São Bento, foram incluídos na Grande União, porém só perseveraram nela alguns conventos alemães.

EREMITAS DE MONTE FAVALE

Aparecem em 1225. De todos os grupos é o que tem uma origem mais obscura e uma história muito pobre. Consta que o Papa Honório III lhe permitiu viver sob a Regra de São Guilherme, ou seja, com orientação beneditina. Também foram incluídos na GRANDE UNIÃO de 1256, porém imediatamente saíram dela porque já em 1255 haviam pedido para se tornarem cistercienses.

EREMITAS DA ORDEM DE SANTO AGOSTINHO DE TOSCANA

Quase pela mesma época dos grupos anteriores, aparecem também na Itália, diferentes casas de eremitas. Por estarem isoladas e em lugares desabitados, receberam o nome de “eremos”.

Em cada “eremo” viviam vários eremitas, completamente independentes dos demais. Cada “eremo” se regia por leis próprias e levavam diferentes estilos de vida. Nada se sabe sobre sua origem, fundador, posição social, etc.

Os “eremos” foram aumentando rapidamente em número, até que os próprios eremitas tomaram a iniciativa de se unirem por um vínculo comum. Como já está explicado anteriormente, com este propósito, enviaram 4 delegados a Roma nos finais de 1243 e o Papa Inocêncio IV aceitou seu pedido, dando-lhes a regra de Santo Agostinho. Deste modo, todos começaram a girar ao redor do bispo de Hipona.

Tem-se assim uma primeira união: a de todos os “ermos”, em 1244, com o nome de EREMITAS DA ORDEM DE SANTO AGOSTINHO DE TOSCANA”, terminando assim sua completa independência e unindo-se, não só pela Regra de Santo Agostinho, mas também por outros aspectos: o apostolado, a liturgia, a vida comum, etc.

Parece que a união não foi fácil no princípio, já que alguns “eremos” resistiram em entrar nela. Contudo, em 1250, já haviam entrado na união nada menos que 61 “eremos” toscanos; e em todos eles se tinha consciência de pertencer a um único corpo, com a consequente obrigação de vestirem o mesmo hábito, de obedecer a um mesmo prior e de acomodar sua vida e uma mesma regra e constituições.

Entre estes, havia sacerdotes e leigos. O Papa Inocêncio IV se preocupou muito para que não se saíssem das linhas agostinianas.

A união de 1244 favoreceu enormemente a expansão territorial da Ordem. Em 1245 já havia ultrapassado os limites da Toscana, estendendo-se pela Inglaterra, França, Suíça, Alemanha Bélgica, Espanha e Portugal. Nos fins de 1250, se estabeleceram em Roma.

De todos, este é o grupo mais agostiniano e é considerado o tronco da ORDEM DOS EREMITAS DE SANTO AGOSTINHO.

 

 

O EREMITISMO NA IDADE MÉDIA

Em meados do século XI, o eremitismo ocidental começa um período de esplendor que se prolonga até meados do século XIII. Por todas as partes aparecem almas inquietas, desejosas do absoluto e enamoradas da soberania divina que, em grupos ou solitárias, abandonam a nascente civilização urbana e correm para a solidão. Geralmente, se estabelecem em lugares inóspitos, às margens das selvas, e ali se entregam a uma vida de trabalho, penitência e oração. Outros abraçam o eremitismo para fazer penitência de seus pecados. Outros, em fim, para seguir a corrente da época ou atraídos pelo magnetismo de algum eremita famoso da região.

O eremita não é necessariamente um ser sem convívio social, inimigo do mundo e todo concentrado sobre si mesmo e sobre uma falsa ideia de divindade. Em geral, é uma pessoa de grande inquietude religiosa, com um alto conceito da majestade de Deus e da perfeição cristã, insatisfeita com os modelos religioso-morais que oferece o mundo em redor. Em consequência, foge do mundo e se refugia na solidão para correr nela com absoluta liberdade atrás de seu ideal. Pratica a hospitalidade. De vez em quando abandona o retiro e percorre campos e povoações pregando a penitência e a conversão. Outras vezes se estabelece à beira dos caminhos ou junto a alguma ermida para prestar ajuda a peregrinos e caminhantes. Quase todos reúnem discípulos, aos quais dirigem pela via da perfeição.