Dos escritos de Agostinho

DEUS É A VIDA DE TUA ALMA

“Tua alma morre perdendo a sua vida. Tua alma é a vida do teu corpo, e Deus é a vida de tua alma. Do mesmo modo que o corpo morre quando perde a sua alma, que é sua vida, assim a alma morre quando perde a Deus, que é sua vida. Certamente, a alma é imortal, e de tal modo é imortal, que vive mesmo estando morta. Aquilo que disse o Apóstolo da viúva que vivia em deleites pode-se dizer também da alma que tem perdido o seu Deus: que vivendo está morta”.

(Com. Ev. de João, 47, 8)

sábado, 18 de fevereiro de 2012

20 lições para conhecer a Santo Agostinho

 

13.- O MONACATO AGOSTINIANO

EXPANSÃO, ECLIPSE E RESSURGIMENTO

(Séculos IV - XII)

A obra monástica de Santo Agostinho não ficou limitada a seu tempo e a sua diocese: mas, pelo contrário, ultrapassou todos os limites e foi se abrindo passo a passo através dos séculos e em diferentes lugares. Poucas coisas desejou com tanto ardor como o florescimento da vida comum. Durante toda a sua vida lutou por difundi-la, defendê-la e aperfeiçoá-la. Nem mesmo a morte pode com seu afã proselitista. Sua palavra continua ressoando, com brevíssimas pausas, ao longo dos séculos; e ainda hoje encontra acolhida no coração dos homens.

Além dos mosteiros mencionados na lição anterior, já como sacerdote Agostinho estabeleceu outro em Cartago, no ano 392, sob o amparo do bispo metropolitano Aurélio. O que Valério foi para Agostinho em Hipona, Aurélio o foi também em Cartago.

Cartago era então o centro civil, cultural e religioso de toda a África; e Agostinho necessitava consultar seus arquivos e bibliotecas em busca de documentação para suas polêmicas. Os monges poderiam consultá-los com facilidade, recolher o material necessário e remetê-lo a Hipona. As demais ocupações seriam muito semelhantes às dos monges de Hipona.

A fama dos monges formados por Agostinho fez com que os bispos os aceitassem com agrado em suas dioceses e os utilizassem na pregação, cargo que era próprio dos bispos.

Toda instituição religiosa se propaga, não só por obra de seu fundador, mas também dos amigos e seguidores deste. Assim, Evódio, Severo, Possídio, Profuturo e Fortunato, bispos, fundaram mosteiros clericais em suas sedes episcopais; e alguns deles fundaram também mosteiros de leigos e virgens. Houve inclusive, dois bispos, Novato e Benenato, que, sem serem abertamente discípulos de Agostinho, fundaram mosteiros com o espírito agostiniano, graças às relações que mantinham com o santo. Também Alípio fundou seu mosteiro clerical em Tagaste.

No ano 411 aconteceu algo digno de menção em Tagaste: um casal de nobres esposos, Melania e Piniano, vindos de Roma, decidiram renunciar ao uso do matrimônio e, movidos pelo exemplo dos monges agostinianos, foram se desprendendo pouco a pouco de suas imensas riquezas, repartindo seu fruto com os pobres e ajudando generosamente aos mosteiros e igrejas da região, enquanto eles mesmos se decidiram abraçar a vida comum. Melania viveu em comunidade com suas 130 servas; Piniano, com seus 80 escravos. Por seis ou sete anos moraram em Tagaste, entregues a uma vida de trabalho e penitência. Melania se distinguiu por sua austeridade e atenção prestada à instrução das monjas e pelo trabalho de transcrição de códices. Da vida de Piniano e seus monges não nos restam detalhes. No ano 417 o nobre casal abandonou África e viajou a Jerusalém para se estabelecerem definitivamente no Monte das Oliveiras. Melania foi santa.

Do mosteiro clerical de Hipona saíram dois sacerdotes, Lepório e Bernabé, que fundaram outros dois mosteiros.

Por volta do ano 400 Cartago tinha já vários mosteiros. Em alguns deles começaram a surgir idéias contrárias ao trabalho manual. O bispo Aurélio pediu a Agostinho que interviesse. Motivado por este fato, Agostinho escreveu sua obra “O trabalho dos Monges”.

Consta que em vida de Agostinho existiam já 17 mosteiros. Cada um estava vinculado ao Santo de maneira diferente. Três deles, ou seja, o de leigos de Tagaste e os dois de Hipona eram obra exclusiva sua. Ele lhes deu o ser, a orientação espiritual e a estrutura jurídico-material. Outros mosteiros tiveram relação com Agostinho apenas ocasionalmente, ainda que seguindo seu espírito.

Existem notícias da existência -com Agostinho ainda vivo- de outros nove mosteiros no Norte de África, embora nada conste de suas relações com o bispo de Hipona. Mas provavelmente seriam frequentes e profundas. Não parece exagerado afirmar que nasceram e cresceram à sombra benéfica do Santo. Todos eles eram fundações de amigos e discípulos seus, que não fizeram mais que transplantar para suas sedes a experiência vivida e assimilada em sua companhia. E, ao instalar-se em suas respectivas dioceses, nenhum rompeu os vínculos com Hipona. Agostinho continuou sendo o mestre e orientador do grupo, a quem se recorria em momentos de dificuldades.

Podem-se contar, portanto cerca de 26 mosteiros existentes enquanto vivia Santo Agostinho, fundados com o ideal do Santo. Estes mosteiros não constituíam unidade jurídica. Não havia entre eles nem regras comuns nem vínculos legais. Não havia surgido na Igreja, ainda, a hora das congregações religiosas. Sentiam-se ligados entre si somente pela origem, pelo reconhecimento da comum ascendência de Agostinho e pelos costumes gerais da época. Além do mais, cada mosteiro era uma comunidade autônoma, que se governava por estatutos particulares e pela legislação dos concílios. O abade gozava de grande liberdade na hora de escolher e aplicar as normas concretas. Os mosteiros clericais dependiam do bispo diocesano.

O entusiasmo das fundações agostinianas logo começou a retroceder devido às invasões dos vândalos. Um dos reis mais cruéis, Genserico, que reinou de 429 a 477, enfureceu-se particularmente com os bispos e seus mosteiros. Calcula-se que entre os anos 430 e 484 o episcopado africano perdeu quase cem de seus membros, baixando o número de 675 para 584. Os mosteiros que mais sofreram foram os de clérigos e de virgens.

Em fevereiro de 484 Honerico deu o golpe final deportando a quase totalidade dos bispos e entregando aos mouros os mosteiros de homens e mulheres.

Mas a perseguição não acabou com os mosteiros africanos. Precisamente a perseguição do ano 484 nos revela a existência de dos mosteiros: em Gafsa e em Bigua, os quais a nossa Ordem considera de inspiração e vida fundamentalmente agostinianas. O primeiro, de Gafsa, era uma mosteiro de leigos e clérigos, habitado por sete monges: Liberato, Bonifácio, Severo, Rústico, Rogato, Septimo, e Máximo. Este mosteiro tem especial importância, para nós agostinianos, devido ao martírio de seus membros. Enfrentando as provações, foram mortos em Cartago, dando grande exemplo de fortaleza de fé e de unidade fraterna. Todos eles selaram suas vidas com o martírio e foram sepultados no mosteiro cartaginês de Bigua. Celebramos a festa destes mártires a 26 de agosto.

Entre os mais importantes e antigos santos agostinianos se encontra São Fulgêncio (462-527). Nasceu em Thelepte (hoje Medinet-el-Kedima, Túnis), em 462 da família senatorial Gordiani, de Cartago. Muito jovem ainda começou a exercer o cargo de procurador em sua cidade natal. Este cargo levava consigo a responsabilidade de administrar a coisa pública entre os vândalos e a cobrar os impostos. Atraído pela vida religiosa, decidiu-se definitivamente depois de ler a exposição de Santo Agostinho sobre o salmo 36. Após algum tempo, lá por 499, resolveu unir-se aos solitários do Egito, na Tebaida. Na viagem passando pela Sicília, dissuadiram-no daquele propósito pelo influxo monofisita que existia entre aqueles monges. Antes de voltar à África, visitou Roma no ano 500. Em torno de 502 foi feito bispo de Ruspe. Por duas vezes esteve, com outros bispos, exilado na Sardenha pelo rei Trasamundo. Cultivou intensamente a doutrina agostiniana, como se deduz de suas obras. Sua vida monástica ajusta-se, em linhas gerais, à mentalidade e ai estilo de vida de Santo Agostinho. Foi chamado, portanto, com razão “Agostinho menor”. Amou profundamente a vida de comunidade e a comunhão de vida. Não conseguia viver senão rodeado de monges. Por isso fundou vários mosteiros, tanto em sua pátria, como no exílio. Morreu em Ruspe no dia 1º de janeiro de 527, depois de longa e penosa enfermidade. A Ordem celebra seu culto a 3 de janeiro.

Com a morte de São Fulgêncio, o monge mais ilustre da África depois de Santo Agostinho, as trevas voltam a cobrir a história do monacato agostiniano. Os esforços de arqueólogos e epigrafistas não conseguem aclarar este período obscuro. Escavações e inscrições nos oferecem dados úteis, mas não suprem a quase total carência de documentação literária. Existem notícias passageiras acerca da existência de mosteiros durante o século VI. Sobre o século VII as informações são, no entanto, mais fragmentadas. Nem um só documento escrito chegou até nós sobre o monacato africano de orientação latina e agostiniana. No entanto, sabe-se de existência de uns 12 mosteiros africanos dessa época; e não há dúvida de que havia muitos outros.

Além da África, houve mosteiros de orientação agostiniana também na Itália, Espanha e França. Não foram somente os vândalos que prejudicaram o desenvolvimento do monacato agostiniano. Também os árabes, durante o século VII, lhe deram alguns dolorosos golpes. Mas semelhantes catástrofes não conseguiram tornar opaca a figura de Santo Agostinho. Sua influência segue de pé em algumas das regras monásticas da época, como a de São Bento e outras.

Durante os séculos VII e VIII o monacato em geral não possuía uma estrutura definida. Cada mosteiro era autônomo e se governava por leis próprias; não se podia, portanto, falar de uma ordem religiosa clara e definida.

Pouco a pouco foi-se impondo a reforma monástica. Contribuíram para isto os imperadores, especialmente Carlos Magno, que no ano 787 mandou tirar uma cópia autêntica da regra de São Bento multiplicando-a e dando-a a conhecer a ponto de Santo Agostinho e seu monacato ficaram relegados a um segundo plano.

Mas a vida religiosa não era vivida somente pelos monges. Havia um grupo de clérigos que também a viviam: eram os chamados cônegos, ou conselheiros do bispo. Estes preferiram o ideal de Santo Agostinho e não o de São Bento, pois lhes chamava mais a atenção a vida comum perfeita e a pobreza individual proclamada por Santo Agostinho.

No entanto, nem todos os cônegos compartilhavam o ideal de pobreza. Houve muitas reformas e divisões entre eles mesmos. Uns, os não reformistas, se converteram em clero diocesano; outros, os reformistas, seguiram o ideal agostiniano: foram os CÔNEGOS REGULARES DE SANTO AGOSTINHO. Regular significa aquele que segue uma regra. Estes, depois de muitas experiências optaram por ficar com a regra de Santo Agostinho, a qual suplantou pouco a pouco às demais regras, até por volta de 1120-1130.

A partir do papa Inocêncio II (1130-1142), a Santa Sé fixa a regra de Santo Agostinho a todas as comunidades de cônegos. Com isto recupera Santo Agostinho um posto eminente na história religiosa ocidental; e sua regra recomeça uma brilhante carreira que chega até os dias de hoje. Em fins do século XII e princípios do século XIII a adotam várias congregações novas dedicadas ao serviço dos enfermos, à redenção dos cativos ou à pregação.

Mas a regra de Santo Agostinho não teve a mesma importância em todas as congregações. Em uma delas alcançou, no entanto, um destaque muito grande. A falta de um fundador concreto e de prestígio induz seus membros a acentuar a veneração à pessoa de Santo Agostinho e o estudo de sua doutrina. Aos poucos essa congregação vai identificando Santo Agostinho como fundador e pai e para ele volta os olhos em busca de inspiração e ideais. Assim nasce a ORDEM DOS EREMITAS DE SANTO AGOSTINHO.

 

 

A REGRA DE SANTO AGOSTINHO

Desde o início, as comunidades religiosas se constituíram em torno de uma regra de vida. As regras, algumas vezes são escritas pelo próprio fundador; outras vezes, por algum discípulo do fundador, mas aprovada por este; ou são, ainda, escritas por vários autores, mas sempre aprovadas pelo fundador. Em outras ocasiões, uma congregação toma a regra de outra, como o que ocorreu com a de Santo Agostinho.

Santo Agostinho escreveu sua própria regra, chamada “Regra aos servos de Deus”, possivelmente para os monges do mosteiro de leigos de Hipona. Estas informações não são completamente seguras, mas são as mais prováveis. É o documento monástico mais importante de Santo Agostinho, mas também o mais controvertido. Uns dizem que é adaptação da carta 211 dirigida às monjas de Hipona; outros, que é uma simples acomodação dos sermões 355 e 356 de Santo Agostinho. Depois de muitas investigações, os estudiosos agostinianos descobriram que a referida regra foi escrita diretamente por Santo Agostinho, e para homens. É composta de 8 capítulos e inicia assim: “Antes de tudo, caríssimos irmãos, amemos a Deus; depois, também ao próximo, porque estes são os principais mandamentos que recebemos”.