Dos escritos de Agostinho

DEUS É A VIDA DE TUA ALMA

“Tua alma morre perdendo a sua vida. Tua alma é a vida do teu corpo, e Deus é a vida de tua alma. Do mesmo modo que o corpo morre quando perde a sua alma, que é sua vida, assim a alma morre quando perde a Deus, que é sua vida. Certamente, a alma é imortal, e de tal modo é imortal, que vive mesmo estando morta. Aquilo que disse o Apóstolo da viúva que vivia em deleites pode-se dizer também da alma que tem perdido o seu Deus: que vivendo está morta”.

(Com. Ev. de João, 47, 8)

segunda-feira, 13 de junho de 2011

TEU AMIGO, AGOSTINHO 4

No fim do verão do ano 388 embarquei, definitivamente, com meu filho e meus amigos, rumo a Cartago e depois para Tagaste.

Fazia tempo que notava que Deus queria de mim algo mais que ser apenas um bom cristão.

Vendi a herança de meus pais... Uma parte eu a dei aos pobres e com a outra parte me estabeleci com os meus amigos na periferia do povoado. Ali vivíamos pondo tudo em comum segundo o estilo dos primeiros cristãos. A simplicidade de vida, a castidade, a oração, o estudo, o diálogo amistoso, a vida familiar..., foram alguns dos princípios básicos de vida que nos propusemos para alcançar a Deus juntos na amizade.

Passei neste primeiro mosteiro uns anos muito felizes, embora não isento de problemas e dissabores. Um deles foi a morte, no ano seguinte de minha chegada a Tagaste, de meu filho Adeodato. Tinha somente 17 anos.

Amava-o como filho e como amigo. Tinha uma inteligência prodigiosa e um caráter afável. No lugar dele, o Senhor me deu muitos outros amigos de meu povoado e de outros lugares perto que começaram a viver comigo e com os demais o ideal de vida que nos havíamos proposto.

O que mais me inquietava neste momento era que me tornassem sacerdote. Já era demasiadamente conhecido e admirado..., e não me sentia digno nem preparado para esse cargo.

Por isso, quando tinha que ir a uma cidade, andava com cuidado para que as pessoas não me vissem e me escolhessem. Por essa ocasião, era o povoado quem elegia aos sacerdotes e os bispos.

Certo dia, que por obrigação fui a Hipona, cidade portuária ao noroeste de Tagaste, durante a missa de domingo, o bispo Valério me viu e pediu ao povo que me elegesse seu ajudante. O povo gritou meu nome: Agostinho, Agostinho... Queremos Agostinho!, e embora tenha resistido chorando, não me coube outra possibilidade senão aceitar. Compreendi que essa era a vontade de Deus.

Depois de um tempo de preparação e de deixar tudo organizado junto ao grupo de amigos para que minha ausência não fosse notada, fui ordenado sacerdote no ano 391.

Em Hipona formei uma nova comunidade de amigos com o mesmo estilo do mosteiro de Tagaste. Vivíamos em uma casa e tínhamos uma pequena horta que o bispo havia deixado. Apesar de ter tido pouco tempo para conviver com eles, foi para mim uma grande ajuda.

Minha nova função pastoral de sacerdote consistia basicamente em estar com as pessoas e ajudá-las em seus variados problemas, pregar, ensinar e administrar os sacramentos. Nesta época também escrevi alguns livros sobre diversos aspectos da Bíblia e de doutrina cristã, a pedidos de alguns. Converti-me, a meu pesar, em substituto do bispo, por isso ele -cinco anos depois- fez-me bispo auxiliar de Hipona. Tinha então 42 anos.

No ano seguinte à morte do bispo Valério, passei a ser bispo titular de Hipona e minha atividade pastoral cresceu.

Ser bispo significava ser pai de todos, cuidar de todos materialmente e espiritualmente. Quem tinha alguma queixa, disputa ou necessidade vinha a mim para que desse a solução.

Na África a heresia e o cisma eram já velhos nestes anos, e os católicos nem sempre sabiam dar razões convincentes de sua fé, por isso muitos cristãos, sacerdotes e bispos, pediam-me uma resposta clara e definitiva para estes problemas. "Como você entende disto mais que nós, diziam-me: escreve". Assim nasceram uma serie de livros que bem cedo adquiriram uma grande difusão. Estavam dirigidos, principalmente, contra as doutrinas maniqueístas, arianas, donatistas e pelagianas, que eram os ensinamentos que naquele momento causavam mais dano aos crentes.

Estes escritos suscitavam muitas polêmicas e muitas brigas com os chefes destas igrejas, pelo que fui "desafiado" a explicar minhas idéias em numerosas entrevistas, encontros e concílios por toda África. Pouco a pouco, embora não sem dificuldades, riscos e ameaças -mais de uma vez estive a ponto de sofrer um atentado- a verdade se foi impondo e todo a norte da África começou a gozar de mais paz e unidade do que nunca houvesse tido. O amor universal e a unidade da Igreja foram minha obsessão e a de meus amigos.

Na pregação cotidiana na igreja de Hipona também expunha ao povo simples a doutrina católica. Mas muitos que desejavam conhecer meu pensamento e doutrina sobre os mais variados pontos do dogma e da Bíblia, e não podiam assistir, solicitavam meus sermões.

Mas não se contentaram com isto, também queriam ter uma palavra definitiva sobre assuntos filosóficos, educacionais, dogmáticos, bíblicos, de vida religiosa, e outra série de questões. Assim nasceram a maior parte de meus livros.

Logo as pessoas mais diversas do mundo romano, começaram a escrever-me. Centenas de cartas me chegavam solicitando-me esclarecimento, uma resposta, a solução para seu problema... A todos os que pude, respondi. Tinha pouco tempo para mim...

Quantas saudades dos dias passados com meus amigos em Cassiciaco e Tagaste. Que tempos aqueles! As pessoas agora, durante o dia, solicitavam-me com os mais variados problemas e necessidades para que os solucionasse. Somente às noites tinha-as livres para dedicá-las a pensar, meditar e orar a Deus, que era meu único bem.

O ano 410 foi um ano terrível para o mundo romano. Os godos invadiram Roma. Alguns pensavam que era o fim do mundo. Logo os inimigos da fé cristã culparam-na de ser a causadora do desastre. Vi-me obrigado a defender a fé desta acusação falsa e injusta. Assim nasceu o livro que intitulei "A Cidade de Deus". Este, junto com "As Confissões", que escrevi como ação de graças a Deus por tudo o que me deu, e o livro "A Trindade" são os que mais fama têm tido das 93 obras minhas que atualmente conservam-se.

Bom, amigo, não quero cansar-te mais com a narração de minha vida... Simplesmente te direi que tinha 76 anos quando, depois de viver e lutar muito e agradecido a Deus por tudo o que fez em mim, deixei este mundo...

Meus últimos dias na terra foram tristes mas esperançosos. Os vândalos de Genserico haviam invadido todo o norte de África matando, roubando, destruindo e desolando tudo. Também chegaram a minha querida cidade de Hipona que foi sitiada totalmente. Eu não vi sua conquista, mas intui que o velho mundo terminava, uma vez que clareava, já, no horizonte, um novo amanhecer.

No terceiro mês do cerco, no dia 28 de agosto do ano 430, Deus me chamou para morar para sempre com Ele, em sua Cidade Celeste, a qual também você esta chamado e desde já peço ao Senhor por você e espero-o.

Um abraço,

Agostinho.