Dos escritos de Agostinho

DEUS É A VIDA DE TUA ALMA

“Tua alma morre perdendo a sua vida. Tua alma é a vida do teu corpo, e Deus é a vida de tua alma. Do mesmo modo que o corpo morre quando perde a sua alma, que é sua vida, assim a alma morre quando perde a Deus, que é sua vida. Certamente, a alma é imortal, e de tal modo é imortal, que vive mesmo estando morta. Aquilo que disse o Apóstolo da viúva que vivia em deleites pode-se dizer também da alma que tem perdido o seu Deus: que vivendo está morta”.

(Com. Ev. de João, 47, 8)

sábado, 28 de maio de 2011

TEU AMIGO, AGOSTINHO 3

No ano 383 influenciado por meus amigos e em total oposição à minha mãe, decidi deixar Cartago e dirigir-me à capital do Império, Roma.

Ali me disseram que podia ser algo mais que um mero professor de Retórica, ganhar mais dinheiro e sobretudo livrar-me daqueles alunos que com sua desordem, gritos e gracejos, não me deixavam desenvolver boas aulas.

Assim que cheguei a Roma peguei uma febre que quase levou-me à morte. Passei muito mal e a recuperação foi lenta. E de novo Deus, a quem eu não "ligava", cuidava de mim como se fosse um filho. Nesta cidade continuei dentro da seita maniqueísta. Eles ajudaram-me muito nestes primeiros momentos difíceis, porém, pouco a pouco, comecei a distanciar-me deles e de suas doutrinas que já não me convenciam como antes...

Para sobreviver, recomecei as aulas de Retórica em minha casa. Os estudantes não eram tão bagunceiros como em Cartago; mas eram maus e tortos e, sobretudo, não pagavam as aulas... Devido a isso prestei um concurso que havia em Milão para obter a cátedra de Retórica e também concorri a uma vaga na corte do Império como orador oficial. Passei no concurso e ganhei a vaga.

Em Milão, além de meu trabalho de Retórica e orador que eu queria só para ganhar fama e dinheiro, dediquei muito tempo vasculhando onde estava a verdade com Alípio e Nebrídio, dentre outros muitos amigos. A doutrina maniqueísta já não me satisfazia, mas tampouco a católica. Era um mar de dúvidas e optei por não "ligar" para a questão, porém minha maneira apaixonada de ser, não me deixava tranqüilo. O bispo de Milão, Ambrósio, com suas palavras me ajudou muito; mas era eu quem tinha que optar e um dia após outro adiava a decisão para o dia seguinte. Amanhã, amanhã, amanhã!..., dizia-me, mas nunca chegava esse "amanhã".

Nesta época planejei, com um grupo de amigos, uma experiência de vida em comum, e quando já tínhamos quase tudo planejado..., não pudemos realizar. As mulheres foram o obstáculo.

Também decidi, influenciado por minha mãe que morava comigo e com meu filho, formalizar minhas relações sentimentais, casando-me. Mas a mulher que eu tinha eleito e prometido casamento era muito jovem e não podia casar-se legalmente. Por outro lado, eu tampouco estava nesse momento muito interessado em casar-me.

Neste momento crucial de minha vida e sofrendo o que não posso contar, também Deus veio em meu socorro. A leitura de uns livros de filósofos neoplatônicos levaram-me a descobrir em mim mesmo a verdade... Assim fui tirando as dúvidas e os problemas intelectuais que anteriormente me atormentavam...

Os escritos de São Paulo completaram esta obra e assim comecei a ver tudo de forma cada vez mais clara.

Por fim havia descoberto onde estava a Verdade e o Bem: em Cristo.

Mas me faltava o mais difícil e importante, dar o passo... Estava muito apegado aos vícios que havia adquirido nos anos passados: sexo, vaidade, orgulho,... bem, já sabes!, e me custava muito deixá-los.

Por esta época, um tal Simpliciano, homem culto -apesar de seu nome- e amigo meu, falou-me de Mário Victorino. Este era um filósofo bastante admirado que se havia convertido ao Cristianismo há pouco tempo. Seu exemplo me comoveu. Também me falaram de Antônio, fundador dos monges de Egito e de outros que como ele abandonaram tudo. Estes exemplos me causaram uma impressão muito forte e quase decisiva. Perguntava-me: Por que eles e não eu? Resistia, no entanto, a dar o passo final e tornar-me cristão, embora eu quisesse.

Finalmente, em um dia de agosto do ano 386, Deus, vendo minha indecisão, deu-me o empurrão que faltava. Estando no jardim da casa onde morava, em estado de desassossego interior, de querer e não poder e chorando por ser incapaz de dar o salto definitivo..., escutei umas crianças que cantavam: "Toma e lê, toma e lê!" Interpretei estas palavras como se Deus me as dissesse e assim peguei a carta de São Paulo aos Romanos, que trazia comigo, e a li: "Nada de banquetes e bebedeiras, nada de prostituição e libertinagem, brigas e ciúmes. Mas vistam-se do Senhor Jesus Cristo" (13,13).

Estas palavras, como se fossem um raio penetraram em mim e dissiparam todas as minhas dúvidas e vacilações... Desde esse instante, decidi firmemente ser cristão com todas as conseqüências e deixar tudo o que antes havia buscado com tanto esforço. Cristo seria minha única luz, minha única verdade, meu único amor!

Estava ainda dando as aulas em Milão. Esperei que chegassem as férias, por ocasião do tempo da vindima, para deixar definitivamente a docência e a cátedra de Retórica.

Retirei-me para um lugar tranqüilo, perto de Milão, chamado Cassiciaco. Aqui um amigo deixou-nos, a minha família e meus amigos, sua casa e sua chácara para que estivéssemos à vontade durante o tempo que quiséssemos...

Durante seis meses permaneci neste lugar descansando, pensando, orando e conversando em amizade com os meus. Que tempo tão feliz passei aqui! Por aquela ocasião escrevi "Os Diálogos", recolhendo as reflexões e conversas que tínhamos sobre diversos temas da vida. Ao mesmo tempo, durante estes meses, fui-me preparando para receber o batismo.

Por fim, a noite de Páscoa do dia 24-25 de abril do ano 387, quando tinha 33 anos, recebi as águas do Batismo na Igreja de Milão... Comigo se batizou meu filho e Alípio, meu amigo. O bispo Ambrósio foi quem nos administrou o sacramento. Foi um grande dia. Minha mãe, Mônica, não cabia em si de tanto contentamento. Suas lágrimas e orações haviam dado resultado.

Cedo deixamos Milão a caminho de Roma. Havia decidido com meu filho e meus amigos servir somente a Deus em minha terra -África. Preparando a viagem de regresso, em Óstia Tiberina, porto de Roma, morreu minha mãe. Que grande mulher foi em todos os sentidos! Depois de sua morte senti uma tristeza imensa e um grande vazio me invadiu. Logo chorei. Só me consolava sabê-la ao lado de Deus a quem sempre esteve tão unida.

Depois deste acontecimento, adiei a viagem a África. Durante um ano estive em Roma. Ali dediquei-me a conhecer os mosteiros de religiosos que existiam. Impressionou-me sua forma de vida e queria imitá-la em minha terra natal.