Dos escritos de Agostinho

DEUS É A VIDA DE TUA ALMA

“Tua alma morre perdendo a sua vida. Tua alma é a vida do teu corpo, e Deus é a vida de tua alma. Do mesmo modo que o corpo morre quando perde a sua alma, que é sua vida, assim a alma morre quando perde a Deus, que é sua vida. Certamente, a alma é imortal, e de tal modo é imortal, que vive mesmo estando morta. Aquilo que disse o Apóstolo da viúva que vivia em deleites pode-se dizer também da alma que tem perdido o seu Deus: que vivendo está morta”.

(Com. Ev. de João, 47, 8)

sábado, 26 de março de 2011

DEUS BASTA‑NOS

Quão formoso e alegre é o convívio dos irmãos juntos

Agostinho já é clérigo: mais exatamente, sacerdote. Mas sacerdote monge para toda a sua vida. Na intenção e na realidade. Será também, portanto, um bispo monge. Convivem com ele no mosteiro fundado no horto junto à Igreja, antigos companheiros ainda que não todos. Alípio voltará depressa para a sua cidade natal da qual em breve será bispo. Assim escreve Posídio, um dos seus acompanhantes: "Ordenado, pois, presbítero, logo fundou um mosteiro junto à Igreja e começou a viver com os servos de Deus, segundo o modo e regra estabelecidos pelos Apóstolos. Acima de tudo olhava a que ninguém naquela comunidade possuísse bens, que tudo fosse comum e se distribuísse a cada qual de acordo com as suas necessidades, como o tinha ele praticado primeiro, depois de regressar de Itália à sua pátria" (Vida, 5).

O tipo de vida que este grupo de amigos levava não podia deixar de ser influenciado pela nova situação em que se encontrava a alma de tudo: Agostinho. Ordenado sacerdote está ao serviço direto da Igreja. Os trabalhos puramente filosóficos cessaram de todo. Não foi em vão que passou três meses de dedicação exclusiva ao estudo da Sagrada Escritura. Daqui tomará a inspiração. Ela lhe indicará as exigências da vida cristã, o que é bom e o que é melhor. Propor‑lhe‑á o ideal a seguir, o exemplo a imitar.

Ideal e exemplo que encontra na vida da primitiva comunidade cristã de Jerusalém, tal como é relatada por S. Lucas nos Atos dos Apóstolos, 4, 32: "A multidão dos que haviam abraçado a fé tinha um só coração e uma só alma. Ninguém chamava seu ao que lhe pertencia, mas, entre eles, tudo era comum... Pois todos os que possuíam terras ou casas vendiam‑nas, traziam o produto da venda e depositavam‑no aos pés dos Apóstolos. Distribuía‑se, então, a cada um, conforme a necessidade que tivesse". Uma vez lido este texto em público, Agostinho acrescentará: "Já vedes aquilo que procuramos. Orai para que possamos realizá‑lo" (Sermão, 356, 2). Sobre tal texto ergue o Santo a sua idéia sobre a instituição monástica. Sobre aquele texto modela a sua comunidade de forma liminar na intransigência:

"Meus irmãos, se quereis dar alguma coisa aos clérigos exorto‑vos: oferecei a todos o que queirais, oferecei‑o espontaneamente. Mas será comum e distribuir-se-á a cada um conforme a necessidade o pedir. Cuidai a caixa das esmolas e todos teremos o suficiente. É uma coisa que me deleita de sobremaneira: essa caixa é o nosso presépio, nós somos o rebanho de Deus e vós o campo de Deus. Ninguém ofereça uma mitra ou uma túnica ou coisa semelhante, mas apenas coisas que possam ser comuns. Também eu tomo tudo do comum, pois sei que é do comum tudo o que tenho. Não quero que a vossa santidade ofereça coisas que apenas eu possa decentemente utilizar, por exemplo, uma mitra preciosa. Talvez convenha ao bispo, mas não a Agostinho, homem pobre, nascido de pobres." (Sermão 356, 9).

Os que optem por viver com Agostinho hão‑de ser continentes, isto é, hão‑de renunciar ao casamento; hão‑de submeter‑se ao superior e obedecer‑lhe; mas acima de tudo hão‑de fazer voto de pobreza. Assim vive Agostinho. Assim quer os que convivem com ele. Antes de entrar hão‑de dar todos os seus bens. A quem quiserem; podem dá‑los aos pobres, à Igreja, ou ao próprio mosteiro. Ao entrar neste hão‑de ir dispostos a viver da Igreja. Ela os há‑de alimentar. Do mesmo modo que a comunidade de Jerusalém se mantinha com as coletas das outras Igrejas, assim o mosteiro e os que nele vivem, hão‑de subsistir com as esmolas dos fiéis.

Ninguém há‑de possuir nada próprio. Fazer o contrário seria um roubo. Tudo, absolutamente tudo, há‑de ser comum e cada um há‑de receber consoante a sua necessidade. A comunidade de bens abarca tanto os temporais como os do espírito. Até a alma há‑de ser comum. O monacato de Santo Agostinho surgiu de um grito "como é formoso e alegre o conviver dos irmãos juntos" (Salmo 132, 1). O monacato tem também uma finalidade: "para isto vos haveis congregado em comum: para que tenhais uma só alma e um só coração em, e para Deus". Assim começa a Regra de Agostinho. Deus, portanto, é a meta última a conseguir em unidade de corações, impelidos pela caridade. Deus será para os monges "a grande e riquíssima possessão". Quem vive com Agostinho não terá mais bens que Deus. Mas Deus basta e sobra para todos.

Os meios para atingi‑lo não são diferentes dos que têm os restantes cristãos para chegar a Deus. Os monges de Agostinho, não são seres estranhos, são cristãos como os outros. Na Igreja primitiva, a comunidade de Jerusalém vivia de uma forma mais perfeita, que as outras comunidades, que também eram cristãs. Os que entram no mosteiro agostiniano tentarão imitar aquela comunidade donde saiu a fé para o mundo.

O monge que deseja viver como Agostinho propõe, não está fora da vida da Igreja. Ao contrário é a parte mais viva da mesma. É o coração do Corpo Místico de Cristo. Vive dentro dela e para ela. Nela encontra a Deus. Por meio dela recebe o Espírito Santo, que infunde em cada um o amor para que possa conseguir essa unidade de corações e assim alcançar Deus. Sem a Igreja não haveria monacato agostiniano porque também não haveria nem Espírito, nem caridade.

Agostinho concebeu o monacato como sendo, antes de mais, um serviço à Igreja. Eram leigos os que entravam no seu mosteiro. Mas tinham de estar preparados para responder dignamente se algum dia a Igreja precisasse dos seus serviços especiais. A grande novidade de Agostinho consistiu em transformar os seus mosteiros em "seminários". A Igreja católica africana, até então, estava humilhada pelo donatismo. A única forma de levantar a cabeça era começar pela reforma do clero. Era preciso afastar do povo muitos costumes menos cristãos que os adversários da Igreja Católica não cessavam de reprovar. Para isso era preciso sacerdotes e bispos capazes. Era também necessário corrigir os vícios do clero, em especial o seu orgulho de casta e a avareza. Por isso, nada melhor que ter onde escolher e convocar apenas os mais dignos. Era preciso uma vida casta e uma instrução conveniente. Havia que afastar a ignorância dos pastores duma forma completa e definitiva. Destes mosteiros saiu a reforma da Igreja africana. Os mosteiros de Agostinho proveram de bispos numerosas cidades africanas. Assim a Igreja Católica começou de novo a reviver.

Quem era chamado ao sacerdócio devia continuar a ser monge, vivendo no mosteiro em pobreza. Nisto Agostinho não admitia excepções. Deveriam viver com ele no mosteiro, como os outros monges não ordenados. Vivendo apenas do comum.

Agostinho vivia, pois, no mosteiro com os seus monges. Mas tinha de prestar os serviços de hospitalidade para com os hóspedes e peregrinos, os quais não queria introduzir no mosteiro. Talvez, se tratava de bispos, para que lhe não levassem os seus melhores monges para as suas dioceses. Ou para que não lhe levassem os maus, os quais ele não permitia que fossem ordenados. Para os poder receber funda um segundo mosteiro em Hipona. A casa episcopal será agora mais um mosteiro onde Agostinho viverá com os seus monges clérigos.

A rigidez que Agostinho mostra em assuntos de pobreza foi a causa de que houvesse alguns hipócritas, que possuindo bens, fizessem testamento. Isto levou‑o a fazer primeiro uma inspeção a todos os seus monges. Encontrou a situação melhor do que diziam as más línguas. Mas este fato fez com que mudasse o seu modo de atuar. Não será tão intransigente. O clérigo que assim o deseje poderá abandonar o mosteiro e viver dos seus bens. São palavras suas: "Sei como os homens gostam de ser clérigos; não lhe será tirado ao que se negar a viver em comum comigo. Mas quem quiser ficar comigo terá Deus. Se está disposto a deixar‑se alimentar por Deus, por meio da Igreja, a não ter nada próprio, repartindo tudo pelos pobres, ou amando‑se em comum, fique comigo. Quem não quiser, é livre, mas veja se poderá conseguir a felicidade eterna" (Sermão 355, 6).

"Viviam com ele os clérigos, com casa, mesa, enxoval comum. Para evitar os perigos de perjúrio nos que estavam habituados ao juramento, instruía o povo fiel, e aos seus, tinha‑lhes mandado que ninguém se excedesse, nem sequer à mesa. Se alguém tinha um deslize nesta matéria, perdia uma porção das permitidas, tanto para os que moravam com ele como para os convidados, estava limitada a quantia de vinho que podiam beber. Corrigia ou tolerava as transgressões à regra conforme a prudência, insistindo acima de tudo em que se deviam evitar as palavras maliciosas..." (Vida, 25).

Para Agostinho, o homem era livre de escolher, ou não, o caminho da perfeição. Mas, uma vez escolhido, não restava outra opção senão escolher também a perfeita pobreza. Por necessidade, o clérigo há‑de ser aspirante à perfeição e, em conseqüência, há‑de viver em pobreza. Donde a advertência de Agostinho: "Veja se poderá obter a felicidade eterna".

Mas Agostinho não queria ter hipócritas dentro de casa. Aquele que falta a um voto, deu só meia queda; mas quem simula o que não tem, caiu de todo. Portanto quem quiser ficar com ele sabe com o que conta. E Agostinho também: "Se alguém vive com hipocrisia, se alguém é proprietário, não lhe permito fazer testamento, mas riscarei o seu nome da lista dos clérigos. Pode citar contra mim mil concílios, ou navegar contra mim para qualquer pais, mas tenha a certeza: Deus me ajudará para que, onde quer que eu seja bispo, ele não possa ser clérigo. Já o haveis ouvido, já o têm ouvido." (Sermão, 356, 14).

Palavras duras e claras. O bispo de Hipona não suportava a hipocrisia a seu lado. O monacato há‑de apoiar‑se na verdade e na sinceridade. A disposição interior de cada um, que entra no mosteiro agostiniano, há‑de ser sempre a de quem está disposto, em cada momento, a interrogar o seu coração. Quer dizer, a jogar jogo limpo. A verdade é um pressuposto irrenunciável. Verdade, que por sua vez, é conquista permanente.

No monacato agostiniano tudo é de todos. E todos fazem tudo. Todos contemplam, todos se dedicam ao serviço ativo da Igreja. Todos trabalham manualmente. Senão na sua pessoa, na de seu irmão. Basta que ames o que é do irmão e isso será teu.

quinta-feira, 24 de março de 2011

O TEMPO PRECIOSO

De dia trabalhava, de noite meditava

O grande número de obras escritas por Agostinho podem levar‑nos ao engano. Podem fazer‑nos crer que a maior parte das horas do dia eram ocupadas a estudar e a escrever. Nada mais afastado da realidade. Para Agostinho isso era apenas um sonho, o desejado. Tinha outras ocupações mais trabalhosas e menos agradáveis para ele.

A maior parte do dia e dos dias passava administrando justiça, resolvendo pleitos e contendas. Agostinho era uma figura vital da sua comunidade. O bispo era uma pessoa importante na cidade. Perante a corrupção geral e a lei do mais forte, ele apresentava‑se como o árbitro que não se deixa subornar; que administra justiça com retidão, rapidez e por amor; sem acepção de pessoas. Eram numerosíssimos os que recorriam a ele, sobretudo os indefesos, tanto pagãos como cristãos, católicos ou hereges. Todos se entendiam para lhe tirar o seu precioso tempo. "Às vezes a audiência durava até a hora de almoçar; outras, passava o dia em jejum, ouvindo e resolvendo pleitos", diz‑nos S. Posídio (Vida, 19).

Outros afazeres gastavam o já escasso tempo de Agostinho: visitava as prisões, intercedendo em favor dos que ali se encontravam, para que não fossem mal tratados. Fazia‑o "com tanta modéstia e recato que não causava nenhum incômodo e pesar, mas sim admiração" (Vida, 20). Para o bem daqueles infelizes submetidos à terrível justiça, ou injustiça, do tempo, teve de se enfrentar, não poucas vezes, com autoridades pagãs ou donatistas, pelas quais não era bem visto. Nem sempre as respostas foram as que esperava e desejava.

"Nas visitas guardava a moderação recomendada pelo Apóstolo, indo só visitar as viúvas e órfãos, que sofriam alguma tribulação. Se algum doente lhe pedia que rezasse por ele e lhe impusesse as mãos, fazia‑o sem demora" (Vida, 27).

Também não lhe era possível empregar a seu gosto as horas que ficavam livres de tais trabalhos. Agostinho viajou e por razões diversas. Fê‑lo pelos caminhos mais insólitos de África. Mais que horas, foram muitos os dias seguidos, que passou a cavalo. Os motivos de tais viagens eram diversos: assistir a concílios, tratar de assuntos políticos, encontrar‑se com outros bispos para traçar planos de ação; visitas pastorais para instruir e fortalecer a fé dos católicos, para discutir com representantes de seitas heréticas, etc.. Viajou em todas as direções: de Cartago a Cesareia da Mauritânia; a este, a oeste e ao interior; quando era jovem e quando os anos já lhe pesavam. Em trinta anos visitou Cartago em trinta e três ocasiões. Às vezes os fiéis mostravam‑se ciumentos e desgostosos pelas longas ausências do seu bispo. Seria curioso chegar a conhecer quais os livros que tiveram a sua gênese sobre o dorso de um cavalo.

Os irmãos que vivam no mosteiro também foram uns ladrões de tempo para Agostinho. Apesar de cansado por muitos e graves problemas atendia‑os sempre com gosto e sem reparar nas horas. Eram a menina dos seus olhos.

O cultivar da correspondência: aqui está outra das múltiplas ocupações do santo. Quando ainda não havia jornais, nem rádio, nem televisão, nem qualquer tipo de revista, a correspondência constituía o único meio de se manter em contato com o mundo exterior. Era necessário procurar a notícia, informar‑se, pedir aquilo de que se necessitasse. Era imprescindível para manter o calor da amizade, para exercer a própria influência. Por outra parte, Agostinho era o sábio do seu tempo nas ciências profanas e nas religiosas. A ele acudiam numerosas pessoas. Umas, para que lhe resolvesse as suas questões; outras para se fazerem valer perante ele e merecerem o louvor da sua pena; outras para o por à prova: será a ciência tanta quanta o vulgo apregoa? Deste modo ficaram‑nos numerosas cartas que mostram o Agostinho homem, amigo, culto, filósofo, teólogo, apologista, polemista; ansioso de aprender e de dar quanto possui. Cartas de grande interesse para conhecer uma época e o homem que marcou essa mesma época.

Por último há que considerar também o tempo empregue na pregação e atividade litúrgica.

Que lhe restava para fazer os seus estudos, as suas leituras? A noite. À luz da lamparina de azeite porque a do sol alumiava outros assuntos. "Tal era a sua ocupação: trabalhando de dia e meditando de noite" (Vida, 24).

quarta-feira, 23 de março de 2011

UMA VOCAÇÃO: SERVIR A IGREJA. DEUS O QUER

 

Amaram em mim terem ouvido que me havia convertido à livre servidão de Deus desdenhando as possessões paternas

Chegava a um porto, o segundo de África, depois de Cartago. Aqui embarcou Agostinho para uma viagem que duraria toda a sua vida. O seu destino já não será Roma, mas sim, o serviço direto da Igreja. A condição não será a de um simples passageiro. Sem o pretender nem o querer, nomeiam‑no timoneiro. A ele competirá conduzir o navio.

Com efeito, saíram errados os cálculos da viagem a Hipona. Por dois motivos: o personagem que quer ganhar para a sua causa não se mostra muito convencido, nem Agostinho consegue persuadi‑lo. Por outro lado, o bispo é velho, fala mal o latim, por ser grego. Os donatistas estão a ganhar terreno. Precisa de alguém que o ajude, alguém que fale bem. Expõe ao povo a urgência desta necessidade. Agostinho está presente na Igreja. As pessoas conhecem‑no. Reconhecem nele a pessoa de quem precisam. É escolhido para sacerdote, ninguém melhor preparado do que ele. Professor de retórica noutros tempos, agora servo de Deus. Que o demonstre ao serviço da Igreja. Agostinho chora. Abusaram, não contaram com a sua opinião nem com os seus amigos, que também o queriam a seu lado. Estilhaçaram os planos que tinha traçado para a sua vida. Chora. Não falta quem pense mal; tentam consolá‑lo. Agostinho considera que é a vontade de Deus. Só Ele pode exercer este tipo de violência. É impossível resistir‑lhe. Cede.

"Prenderam‑no e como ocorre nestes casos, apresentaram‑no a Valério para que o ordenasse, consoante o exigiam o clamor unânime e grandes desejos de todos, enquanto ele chorava copiosamente. Não faltaram aqueles que interpretaram mal as suas lágrimas, segundo ele próprio nos referiu e, como para o consolar, diziam‑ lhe que, ainda que fosse dignos de maior honra, no entanto o seu grau de presbítero era próximo do episcopado, sendo que aquele homem de Deus, como sei por confidência sua, gemia pelos muitos e graves perigos que via o iam cercar com a administração e governo da Igreja: e por isso chorava. Assim se fez o que eles quiseram" (Vida, cap. IV).

Agostinho é ordenado. Mas antes põe condições: que lhe seja permitido viver com os amigos. O velho bispo Valério consente. Permite‑lhe erguer um mosteiro numa pequena quinta, propriedade da Igreja. Agostinho volta a Tagaste. Tem de dar a triste notícia aos seus companheiros. Não vai poder viver com eles como dantes. Quer levar consigo alguns para que o ajudem a erguer o novo mosteiro. A comunidade vai ser dividida. Nem Agostinho nem os outros querem que ele volte logo para Hipona. Escreve uma carta ao seu bispo. Necessita de um prazo de pelo menos três meses para ler e estudar em profundidade a Escritura. Não quer ver‑se condenado: tal é a responsabilidade. "Atrevo‑me a confessar que com plena fé retenho o que atinge a minha própria saúde. Mas, como hei‑de administrar aos outros sem procurar a minha própria utilidade mas sim a salvação dos outros?... Como se pode conseguir isso, a não ser pedindo, chamando e procurando, quer dizer, orando, lendo e chorando, como o próprio Senhor mandou? Com esta finalidade me vali de meus irmãos para solicitar da tua sinceríssima e venerável caridade algum adiamento, por exemplo, até à Páscoa; agora repito o meu pedido por estas preces. Acaso terei de responder ao divino juiz: «Não me pude informar convenientemente, pois mo impediram os assuntos eclesiásticos»? Ele me replicará: «Mau servo supõe que te tivesse aparecido um pretendente aos bens da Igreja, na qual tanto trabalho se emprega par recolher os frutos...» (Carta, 21, 4, 5).

Agostinho volta a Hipona. Dedica‑se em cheio à atividade sacerdotal, sobretudo à pregação. Chovem as críticas. É contra o costume de toda a África que um sacerdote pregue estando presente o bispo. Segue adiante com o apoio do próprio bispo. Recolhe os primeiros triunfos e as primeiras desilusões. Dirige a palavra a um concílio de bispos e continua a escrever. Os temas agora já não são escolhidos por ele. São‑lhe impostos pela vida e necessidades da Igreja. A sua fama estende‑se com uma velocidade insuspeita. Até o próprio Valério teme que Agostinho volte a ser violentado, que outras cidades sem pastor lho arrebatem. Para o evitar consagra‑o bispo de Hipona, também contra as normas estabelecidas. Era o ano de 395. Será o seu sucessor, quando da sua morte, sendo já ancião, apenas um ano mais tarde. Nem todos fora de Hipona estão de acordo. Os mais invejosos levantam acusações e declaram nula a consagração de Agostinho. A verdade triunfa: tratava‑se de pura calúnia. Para sempre será já o bispo de Hipona.

Onde estão os planos de há poucos anos! Tanto mudaram as coisas! Que sonho tão belo teria sido poder dedicar‑se à contemplação da verdade, livre de todo o cuidado temporal.