Dos escritos de Agostinho

DEUS É A VIDA DE TUA ALMA

“Tua alma morre perdendo a sua vida. Tua alma é a vida do teu corpo, e Deus é a vida de tua alma. Do mesmo modo que o corpo morre quando perde a sua alma, que é sua vida, assim a alma morre quando perde a Deus, que é sua vida. Certamente, a alma é imortal, e de tal modo é imortal, que vive mesmo estando morta. Aquilo que disse o Apóstolo da viúva que vivia em deleites pode-se dizer também da alma que tem perdido o seu Deus: que vivendo está morta”.

(Com. Ev. de João, 47, 8)

sábado, 5 de março de 2011

SEMPRE CARTAGO

Conversar e rir‑mo‑nos juntos

Com o coração profundamente ferido prossegue a sua vida em Cartago enquanto espera a cura. Só o reanimava e confortava a consolação dos amigos. Encontrava alívio a conversar com eles e rir‑se em sua companhia e nas mútuas atenções de amizade e em tantas outras coisas que ele nos descreve: "Ler juntos livros amenos; brincar uns com os outros dando‑nos provas de estima recíproca; discutir sem paixão; ensinar ou aprender alguma coisa com o outro; ter saudades dos ausentes; recebê‑los com alegria no regresso. Com estes e outros sinais semelhantes, que nascem do amor do coração daqueles que se amam uns aos outros e o manifestam pela expressão, pela palavra, pelo olhar e outros mil gestos agradáveis, fundiam‑se, com o seu calor, as nossas almas e de muitas se fazia uma só." (IV, 8, 13).

A amizade foi o bálsamo que a pouco e pouco curou as suas feridas.

Durante esta segunda estadia na capital africana, a dos 26 ou 27 anos, compõe a sua primeira obra, que se perdeu para nós, O belo e o conveniente, e foi dedicada a um famoso orador de Roma. Apesar de não o conhecer pessoalmente apreciava‑o pela fama da sua doutrina. Mas o que mais lhe agradava era o fato de os outros gostarem dele ao ponto de se fazerem arautos da sua arte e de se admirarem que, tendo sido educado na eloquência grega, tivesse chegado a ser orador admirável na língua latina.

Em Cartago abre uma escola de retórica. O tempo que lhe sobra emprega‑o em completar a sua formação intelectual. Não lhe bastava o que tinha recebido na escola. Agora interessa‑se sobretudo pela filosofia, concretamente, por Aristóteles. O seu talento privilegiado poupa‑lhe a necessidade de mestres. A prova disto está em que com vinte anos lê e compreende, sem que ninguém lho explicasse, um livro do mencionado filósofo, que lhe veio parar às mãos, intitulado As dez categorias; livro que outros só com dificuldade conseguiam entender, mesmo depois de lhes ter sido explicado de muitas maneiras por sábios mestres.

Lia todos os livros que lhe chegavam às mãos. Não só de filosofia mas também do que então se chamavam as artes liberais: a retórica e a dialética, a geometria, a música e a aritmética. Tudo percebia sem que ninguém lho expusesse, prova evidente duma lúcida inteligência, como o prova a seguinte confissão do próprio Agostinho: "Só quando tive de explicar aos outros me dei conta de quão difíceis são de entender mesmo para pessoas estudiosas e inteligentes. Entre os meus alunos, era o melhor aquele que não tardava em seguir a minha exposição" (IV, 16, 30).

Diante disto, a pergunta de Agostinho, dirigida a Deus, soa assim: "Que me aproveitava, pois, então a inteligência desperta para aquelas ciências e o ter posto a claro, sem auxílio de nenhum mestre humano, tantos livros cheios de dificuldades, se na doutrina da religião, errava monstruosamente e com sacrílega maldade?" (IV, 16, 31).

Ainda que pergunte, fingindo não saber, Agostinho não desconhecia que o proveito que tirou foi imenso. O estudo das ciências deu‑lhe capacidade para perceber a falsidade das doutrinas maniqueístas. Pelo menos, começou a ver a oposição entre a fé de Manes, o fundador da seita, e as afirmações da seita. Manes, a seus olhos cai em descrédito. Agostinho não pára de pôr questões de todo o tipo a que ninguém sabe responder. Os que lhe tinham prometido dar explicações de tudo, convidam‑no a esperar. Esperar pelo grande doutor da seita, de seu nome, Fausto. Mais tarde, Agostinho falará dele como de uma hábil armadilha do demônio em que muitos caiam, enganados pela suavidade das suas palavras. Tinha‑lhe sido apresentado como muito douto em todos os ramos do saber e bastante instruído nas artes liberais. Entretanto não perdia o tempo. Consoante o fio das suas leituras, ia comparando mais e mais o que diziam os filósofos com as inúmeras fábulas dos maniqueus. É fácil de entender que já lhe parecia mais razoável o que diziam os primeiros do que os sonhos dos segundos.

Os últimos anos, que Agostinho viveu no maniqueísmo, foram os anos de espera pela chegada de Fausto. Eram muitas as coisas que esperava tratar em diálogo franco com ele. Procurava soluções para problemas pessoais e outros não tão pessoais, mas igualmente importantes.

Por fim, chegou o momento do esperado encontro. O resultado foi uma desilusão. Depressa compreendeu que era ignorante nas artes em que o julgava sábio. O que significava que tinha de ir perdendo a esperança de achar solução para as questões que o inquietavam, como de fato aconteceu. Mas Agostinho louva a prudência do maniqueu. Reconhecendo a sua ignorância declinou responder a quanto se lhe perguntava. Desconhecia aquelas questões e não se envergonhava de o dizer. Não ignorava de todo a sua ignorância, dirá Agostinho. Não quis entrar num combate que o poria em apertos e donde não lhe seria fácil encontrar uma saída, sem ter qualquer possibilidade de retirada. Foi este o gesto que mais agradou ao jovem. E dá a razão: "porque mais formosa é a modéstia de uma alma que se conhece a si própria, do que a ciência que eu desejava conhecer" (V, 7, 12).

Já bispo, Agostinho escreveria uma obra monumental para refutar o bispo maniqueu: Contra Fausto. Mais importante para nós agora é o resultado deste encontro. Apaga‑se o entusiasmo com que se tinha aplicado a estudar os escritos de Manes. A sua desconfiança estende‑se a todos os doutores da seita. O empenho que tinha resolvido pôr, para progredir nela, vem‑se abaixo ao conhecer aquele homem, se bem que ainda não vai ao ponto de se separar totalmente dos maniqueus. Mas só até descobrir outra coisa melhor. A decisão é provisória.

A vida de Agostinho foi a de um inquieto pesquisador. Conheceu muitas coisas que, se o deixavam insatisfeito, o estimulavam a continuar a busca. Mas, ainda que não fossem do seu total agrado nunca as abandonava até ter encontrado algo superior. Isso encontrá‑lo‑á dentre em breve e noutro lugar.

Por razões, que diremos a seguir, Agostinho muda‑se para Roma. Era o ano de 383. Contava então 29 primaveras.

sexta-feira, 4 de março de 2011

UMA INQUIETAÇÃO: DESCOBRIR A VERDADE. DE NOVO EM TAGASTE

Tive um amigo a quem amei excessivamente

Quando Agostinho voltou para casa de sua mãe ‑seu pai tinha morrido três anos antes‑ não voltou só. Viajavam com ele as teias de aranha do erro maniqueísta, que o impediam de ver a verdade e lhe fecharam as portas da casa materna.

Com ele viajava também uma mulher, cujo nome nunca nos quis revelar, e o filho que lhe tinha dado, a quem chamou Adeodato, que significa "dado por Deus".

Junto com a "superstição" maniqueísta, acompanhava‑o a fé nos astrólogos.

Mas principalmente era acompanhado por tudo o que tinha acumulado nos estudos daqueles anos, feitos com seriedade e que, no dia de amanhã, tanto o iriam ajudar. Dedicou‑se ao ensino, também sem dúvida para ganhar o seu sustento e não ser pesado a Romaniano, sempre benfeitor, que lhe tinha oferecido a sua hospitalidade. Dava aulas de retórica, isto é, ensinava a arte de bem falar. Com expressões suas, "a arte de vencer pela palavra" ou "a arte de enganar" (IV, 2, 2). Este juízo, tão severo, é emitido por Agostinho, já bispo. Sem dúvida ele desempenhava o seu ofício com dignidade e seriedade. Põe Deus por testemunha da sua boa fé no ensino.

Finalmente, acompanhavam‑no também os seus amigos. A todos quantos giravam à sua volta e a outros que se lhes juntaram mais tarde, conseguiu arrastar para a fé maniqueísta, incluindo o próprio Romaniano. A sua personalidade era avassaladora. No entanto conhecemos duas excepções: a sua mãe Mônica, e a sua amante.

Entretanto, Mônica chora a morte de seu filho e não cessa de rezar para que volte ao verdadeiro redil de Cristo. É para ela uma obsessão, refletida no sonho que Agostinho nos conta. Está muito triste e desfeita em lágrimas, de pé sobre uma trave de madeira. Aproxima‑se dela um jovem, resplandecente, de rosto alegre e risonho. Pergunta‑lhe a causa do seu desgosto e das suas lágrimas para lhe poder dar alívio. Ela responde que chora a perda de seu filho. O jovem roga‑lhe que não se aflija, que abra os olhos e observe que onde ela está, está também o filho. Mônica olha com atenção e vê a seu lado Agostinho, de pé, sobre a mesma trave. A partir de então, a certeza de Mônica acerca da conversão de seu filho é total, ao ponto de decidir admiti‑lo novamente sob o seu tecto. De nada serve que Agostinho tente torcer as palavras daquele jovem. Ela replica em seguida "não me disse onde está ele estarás tu; mas sim: onde tu estás estará ele" (III, 11, 20).

A sua estadia em Tagaste não durará muito. O desgosto causado pela morte de um amigo fá‑lo‑á voltar para Cartago.

Desde os seus dias de escola em Tagaste, Agostinho conservava ali um amigo íntimo. Tinha sido seu companheiro, era da mesma idade e ambos estavam na flor da juventude. Tal amigo morreu pouco mais tarde e, para maior infelicidade do jovem maniqueu, faleceu depois de ter recebido o batismo católico e não permitindo que ninguém troçasse dele. Nada melhor que as suas palavras para narrar os sentimentos de então: "O meu coração encheu‑se de trevas e em todas as coisas via a morte. A terra onde nasci era para mim um suplício e a casa paterna tornara‑se insuportável. As coisas que tinha partilhado com ele tinham‑se tornado num crudelíssimo tormento sem ele. Todas as coisas tornaram‑se odiosas porque não encontrava o amigo entre eles, nem me podiam dizer:«olha‑o, aí vem», como antes, quando voltava depois de uma ausência. Cheguei a tornar‑me insuportável a mim próprio... Só o choro me era doce e, no lugar do amigo, fazia as delícias da minha alma" (IV, 4, 8).

Admirava‑se que os outros mortais vivessem, tendo morrido aquele a quem tinha amado como se nunca tivesse de morrer. Admirava‑se também de ele próprio continuar a viver, tendo morrido o amigo que era o outro ele. Porque sentia que a sua alma e a do amigo era uma só em dois corpos. Por isso a vida causava‑lhe horror: porque não queria viver com metade do seu ser; e talvez por isso, tinha medo de morrer, porque significaria a morte total daquele a quem tão exageradamente tinha amado.

Ainda que sejam bastante literários são formosos estes pensamentos com que Agostinho, muitos anos depois, recorda aqueles acontecimentos como são os que vamos transcrever para concluir este capítulo. "Tudo me causava horror, até a própria luz. Tudo o que não era aquele homem era‑me insuportável e odioso. Só a gemer e a chorar encontrava repouso. Assim, fugi da minha terra natal, pensando que os meus olhos o procurariam menos em sítios onde não era costume vê‑lo. Da cidade de Tagaste fui para Cartago" (IV, 7, 12). Era o ano de 376.

quarta-feira, 2 de março de 2011

A GRANDE CIDADE: CARTAGO

Amar e ser amado

Um rapaz da aldeia chega à grande cidade; um mundo abre‑se ante os seus olhos. Os mármores brancos multiplicam, com os seus reflexos, os raios de sol. Habitantes de todos os cantos do império encontram em Cartago o lugar ideal para vender as suas mercadorias ou as suas filosofias, ou ainda, procurar novos adoradores de divindades imigrantes, que competem com as antigas ainda bem arraigadas. Os navios carregados de trigo, levando consigo os temores e medos de quem sente um tétrico respeito às ondas e aos seus caprichos. Não menos freqüentemente esses navios transportam, não já alimentos, mas sim, homens famintos, senão de pão, ao menos de glória, de honrarias à sombra do imperador ou da administração imperial, de letras ou, simplesmente, de alunos mais tranqüilos e estudiosos. Podemos supor que Agostinho se dirigia, com freqüência, ao porto para aí passear, à procura de qualquer novidade que chegasse da outra margem do mar.

Em Cartago, Agostinho entregou‑se ao estudo da retórica. Esperava sobressair nesta disciplina, como antes noutras coisas. Ela poderia deste modo ir alimentando a sua vaidade humana. Uma vez mais o êxito e o triunfo foram os seus doces companheiros. "Era eu o primeiro da classe de retórica. Cheio de gozo, orgulhava‑me e inchava de vaidade" (III, 3, 6).

Continuou a cultivar a amizade dos seus companheiros de estudo. Os seus dotes naturais tornavam‑no perfeitamente capaz de distinguir entre os deveres da amizade e o aprovar tudo quanto faziam os amigos. Como norma mantinha‑se afastado das selvajarias dos seus revoltosos companheiros, apesar de experimentar certa vergonha de não ser como eles. Contudo andava com eles e tinha prazer na sua amizade. Mas detestava as suas façanhas. De um modo particular sentia‑se incomodado pelas partidas que pregavam aos caloiros recém‑chegados à capital, vindos de sítios diferentes. Sem motivo algum insultavam‑nos e ridicularizavam‑nos, fazendo deles objeto de partidas e divertimentos.

Mais longe ainda dos conselhos de sua mãe, dos quais talvez tivesse continuado a não fazer caso, a sua inquietação juvenil dispersa‑se ainda mais. Cartago era um remoinho. Ele compara‑a a uma panela onde fervem todo o tipo de amores impuros. E nela caiu Agostinho. "Ainda eu não amava mas amava amar... Procurava o que amar, amando o amar... Amar e ser amado era mais doce se gozava também do corpo do amado." (III, 1, 1). Com estas belas expressões descreve as suas ânsias daquela época e censura‑se o ter manchado a fonte da amizade com a imundície da concupiscência, turvando as suas águas com o lodo remexido da luxúria. Mas agora preocupa‑se com alguma coisa mais: apesar de ser desonesto, tudo faz para parecer elegante e cortês, "ressumando vaidade".

Os espetáculos teatrais entusiasmam‑no. Eram a lenha que aumentava a chama das paixões que sentia arder no seu interior.

Contudo, Agostinho encontra‑se insatisfeito. Nem o êxito nos seus estudos, nem a amizade dos companheiros enchem o seu vazio interior. Nem mesmo os espetáculos de teatro, nem o cultivo das suas paixões. O terreno está suficientemente preparado para a leitura do Hortênsio. Segundo a ordem habitual dos estudos, chega ao momento de ter acesso a este livrinho de Cícero que consiste no convite à sabedoria. O livro muda os seus afetos e desejos; endereça a Deus todas as suas súplicas e faz que sejam outras as suas aspirações a curto e a longo prazo. De momento, começa a parecer‑lhe desprezível tudo aquilo por que até então suspirava. Com incrível entusiasmo, decide entregar‑se à conquista da sabedoria.

A leitura de Cícero foi decisiva para a posterior evolução de Agostinho. Significava nada menos que o convite a abandonar os bens exteriores para se entregar plenamente à procura dos do espírito. Só uma coisa lhe parecia fria no meio de tantos ardores: não encontrava no livro o nome de Cristo. A razão é‑nos dita por ele próprio: "esse nome havia‑o bebido o meu tenro coração com o leite de minha mãe e tinha‑o profundamente gravado" (III, 4, 8). Não é de estranhar, portanto, que não o satisfizessem de todo, qualquer escrito onde estivesse ausente esse nome ainda que fosse elegante, polido e erudito.

Agostinho não despreza o convite e lança‑se à conquista dessa sabedoria. Antes de a pedir a outros, pede‑a a Jesus através da Bíblia. Com efeito, resolve entregar‑se ao estudo das Escrituras para ver como são. Mas... a seu modo de ver não se podem comparar com os escritos de Cícero. "A minha vaidade recusava a simplicidade e a minha vista curta não penetrava até o seu interior" (III, 5, 9). Para aproximar‑se dela é necessário apresentar‑se como uma criancinha. Ele, ao contrário, desdenhava ser pequeno e "cheio de presunção tinha‑me por grande" (id.).

Não é de estranhar que o jovem estudante, habituado a ler os clássicos da língua latina achasse aquela leitura insuportável. A tradução era feita a partir do grego, quase sempre por pessoas simples e pouco cultas. O latim resultante aparecia salpicado de termos gregos latinizados, além de expressões, modismos e palavras da língua vulgar que destoavam na boca de quem pretendesse passar por educado e culto. O certo é que recusou as Escrituras mas não a Jesus.

Desiludido por este primeiro contato com a palavra de Deus, sempre à procura da sabedoria foi parar junto de uns homens que também falavam de Jesus. Apesar do seu coração e da sua cabeça estarem vazios dela, não cessavam de repetir: Verdade, Verdade!. "Muitos a nomeavam, mas nunca estava neles" (III, 6, 10). Por outras palavras, fez‑se maniqueu. A doutrina deste grupo será exposta mais adiante; agora basta‑nos recordar a rede estendida a Agostinho. Apresentavam‑se como vendedores de uma religião para pessoas doutas, quer dizer, onde não havia nada para crer; pelo contrário, era tudo racional, tudo compreensível pela razão. A religião católica, diziam os maniqueus, só pede fé, nunca dá explicações. Sobretudo a respeito da origem do mal, problema que o atormentava. Além disso a sua doutrina é absurda; Deus é apresentado com traços humanos; as Escrituras contradizem‑se; o Antigo e o Novo Testamento não são concordes. Neste último ponto, os maniqueus obtinham fáceis e rotundos triunfos sobre os cristãos simples.

Agostinho, jovem de dezanove anos, encontra‑se confrontado com o seguinte dilema: ou fé ou razão. Ele opta pela segunda, recusa, portanto, a fé dos católicos e adere à suposta ciência dos maniqueus. Terá de passar uma dezena de anos para que se dê conta de ter colocado mal o problema e de ter sido enganado.

Com a doutrina maniqueísta, pensava o jovem saciar a sua fome de Deus. Para isso apresentavam‑lhe muitos e volumosos livros. Foi grande a sua surpresa e decepção quando se encontrou com outro manjar diferente do procurado e apetecido. Em vez de lhe apresentarem Deus, de quem Agostinho tinha fome, falavam‑lhe do sol e da lua. Obras de Deus; obras formosas, sem dúvida, mas não o próprio Deus.

Nunca desejos melhores arrastaram mais lúcida inteligência para pior destino.

Naquele período da sua vida, Agostinho une‑se a uma mulher com quem vive em matrimônio, apesar de ser de segunda categoria, mulher que mais tarde poderá abandonar facilmente. A lei romana não permitia que se casassem pessoas de diferentes classes sociais, aprovando no entanto, esta forma de vida em comum. Mas deixemos que o próprio Agostinho nos conte: "Por aqueles anos comecei a viver com uma mulher a quem não estava unido em legítimo matrimônio. Foi a paixão cega que a procurou. Mas, isso sim, tive só uma e guardei‑lhe lealdade como a uma esposa. Nela experimentei, por mim mesmo, a diferença que existe entre o matrimônio legítimo, que se contrai para procriar filhos e a outra união, fruto do amor lascivo, onde nascem filhos contra a vontade dos pais, ainda que, depois de nascidos, obriguem que os amem" (IV, 2, 3).

Não há que ver nisto mais uma prova da perversão de Agostinho. Tudo quanto foi dito mostra, pelo contrário, o seu equilíbrio, um certo autodomínio, a sua capacidade de amar a uma pessoa. Não era freqüente, naquele tempo, que um jovem, como Agostinho, mantivesse tal fidelidade a uma mulher que não ia ser sua esposa para sempre e que a amasse com tanta força, como deixará ver quando tenha de separar‑se dela. Foi um caso excepcional. Não de paixão e de pecado, mas sim, de fidelidade e de entrega.

Concluídos os estudos volta de novo à sua terra natal. Era o ano de 375.

terça-feira, 1 de março de 2011

AQUELE DÉCIMO SEXTO ANO DA MINHA VIDA

 

“Doce é também a amizade dos homens com nó de amor

porque faz de muitas almas uma só”

Madaura está situada a poucos quilômetros ao sul de Tagaste. Passou à posteridade como pátria do poeta latino Apuleio. Os costumes e os ânimos dos seus habitantes achavam‑se ainda impregnados de paganismo. Aqui continuou Agostinho a sua marcha pelos caminhos da cultura e da formação literária, uma vez terminados os estudos elementares na sua terra natal. Ele, como seus pais, sonhava com Cartago, coisa impossível naquele momento. Terminada a sua instrução em Madaura e sem meios para continuar os estudos na capital da África romana, teve de voltar para Tagaste.

Ali vive com os seus pais, que nunca como então, lamentaram a sua pobreza. Para Agostinho, com os seus dezasseis anos, emerge uma vida nova com o despertar de um inesperado e mais intenso sentido social. Esforça‑se por parecer agradável aos homens; descobre o prazer de amar e de sentir‑se amado. Porém, inexperiente, foi incapaz de manter o equilíbrio e, com palavras suas, " ultrapassa a barreira luminosa das exigências da amizade" (II, 2, 2). Nada estranho que recolha os frutos da inatividade. Sem nada que fazer, sem ocupação estável a que dedicar‑se, os espinhos da lascívia ou impureza encontraram terreno fértil na natureza pujante da sua adolescência. "Cresceram mais altos que a minha cabeça e não houve mão que os arrancasse" (II, 3, 6). Se não houve mão que os arrancasse, foi devido, talvez, a que ele o não tenha deixado. Em vão, Mônica tentava manter o filho dentro da lei do Senhor; em vão, se cansava para que não se afastasse de Deus. Os seus conselhos pareciam‑lhe coisa de "beatas" e até se teria envergonhado de segui‑los. Mais tarde ao contrário, sentirá vergonha de não o ter feito.

À falta de ocupação útil, emprega o tempo fazendo tropelias com os companheiros. Havia junto da vinha de seu pai uma pereira carregada de fruto. Nem o aspecto em o gosto chamavam a atenção. Isso não foi obstáculo para um grupo de moços, entre os quais estava Agostinho, decidirem ir, uma noite, despojar a árvore das suas pêras. Sacudiram‑na e levaram grande quantidade, não para comê‑las, mas sim para as atirar aos porcos. Significava ser mau sem razão. Como ele dirá, não havia outra causa para aquela maldade, senão a própria maldade. "Era uma risota, como umas cócegas no coração, ver que estávamos enganando quem não suspeitava que fizéssemos tais coisas e que o ia levar muito a mal" (II, 9, 17).

Quem leia estas páginas e outras, que não estão transcritas aqui, poderá tirar a conclusão que Agostinho foi um jovem pervertido. Nada menos certo. Agostinho escreve as Confissões quando já era bispo, à luz de Deus, diante de quem todo o pecado é monstruoso. A sua fé carregava de cores negras qualquer ação contra a lei do Senhor. Entre os seus companheiros devia ser pouco menos do que um santo, a julgar pelas suas próprias palavras. Entre os da sua idade, envergonhava‑se de ser o menos desavergonhado. Quando ouvia a outros pavonear as suas malandrices e gabarem‑se delas, tanto mais quanto piores eram, tinha vontade de fazer outras parecidas. Não só pelo gosto de fazei-las mas também para ser louvado. Fazia‑se vicioso para que os companheiros não troçassem dele. Até ao ponto que, quando não tinha feito nada que se pudesse comparar às façanhas dos outros, gabava‑se diante deles de coisas que apenas tinham tido existência na sua imaginação. Tinha medo que ao parecer inocente fosse considerado cobarde, incapaz e a sua conduta pouco viril.

Até no roubo das pêras, que pinta com cores tão negras, brilha uma faceta típica da sua personalidade. Não amou o furto, apenas a companhia dos amigos. Assegura‑nos que sozinho nunca o teria feito e põe a Deus por testemunha da veracidade dessa afirmação. Ele sozinho nunca teria cometido aquele furto em que não tinha prazer no objeto do roubo, mas sim no ato de roubar. Nem sequer lhe teria agradado ter tido de o fazer sozinho. Portanto não o teria feito. Ele próprio tirou a conclusão: "Logo, o que amei naquele furto, foi a companhia dos cúmplices com quem o cometi. Basta que alguém diga «vamos, façamo‑lo» e ficasse logo envergonhado de não ser desavergonhado" (II, 9, 17).

Agostinho não podia viver sozinho. Necessitava o afeto. "Que outra coisa me deleitava senão amar e ser amado" pergunta‑se. Formosa realidade mas torvada pelo modo concreto como a levava a cabo. Tão nobre desejo de amor não ia pelos limpos caminhos da amizade autêntica mas achava‑se envolto no lodo da concupiscência da carne. Em plena puberdade não era capaz de distinguir a luminosidade do amor casto da escuridão da impureza.

Finalmente, Patrício e Mônica conseguiram os meios econômicos que iriam permitir‑lhe a viagem para Cartago, graças à ajuda de um homem rico da terra, Romaniano. E Agostinho partiu para uma terra nova, ignorando o que o futuro lhe tinha reservado. Era o ano de 371.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

INFÂNCIA E MENINICE

 

Gozava da amizade...

Fugia da ignorância...

Agostinho viu a luz do dia a treze de Novembro do ano de trezentos e cinqüenta e quatro. Como qualquer outra criança, logo após o nascimento, saboreou o prazer do leito materno. Então, dirá ele próprio, "não conhecia eu outra coisa além de mamar, gozar esse prazer e chorar quando me sentia incomodado no corpo. Nada mais." (I, 6,7).

"Depois, prossegue, comecei a rir; ao princípio enquanto dormia, depois acordado. Assim me disseram que eu fazia. Acredito‑o porque é o que vejo nas outras crianças... Queria exprimir os meus desejos aos outros para que os executassem e não podia. Por isso agitava as pernas e os braços e gritava. Quando não me satisfaziam, zangava‑me com os meus adultos porque não me obedeciam e vingava‑me deles chorando. Aos outros, muitos, que não faziam caso dos meus sinais e caprichos, tentava fazer‑lhes o maior mal possível batendo‑lhes com as minhas mãozinhas. Não sabia que, se tivessem obedecido aos meus desejos, teria sido para meu mal" (I, 7, 11). Por fim, "entre as carícias dos meus e as brincadeiras e festas dos que se riam comigo, observando‑os, fui aprendendo a falar" (I, 14, 23). Aqui acabou a sua infância.

Também a meninice de Agostinho foi igual à dos outros meninos. Os seus pais preocuparam‑se com a sua educação, com os seus estudos. Em Tagaste teve de ir à escola. Aí o levaram para que aprendesse a ler e a escrever. "Eu, triste de mim, escreverá mais tarde, não sabia qual a utilidade que tinha" (I, 9, 14). O medo dos açoites era a única razão que o obrigava a estudar. É conhecido de todos o ditado que diz "a letra com sangue entra". Tais açoites, além de o impelirem a estudar, conduziam‑no a Deus. Na escola, Agostinho menino, aprendeu a experimentar, na medida das suas possibilidades que Deus é um Ser Grande; ainda que não se manifeste aos nossos sentidos pode ouvir‑nos e socorrer‑nos. Deste modo, já desde pequenino, rogava a Deus, com não pequeno afeto, que não o açoitassem na escola.

Pois, desde rapazinho, recebeu também educação cristã. "Já então eu acreditava em Deus, acreditava a minha mãe e toda a casa, exceto meu pai... Pois, mal sai do ventre de minha mãe, fui assinalado com a cruz e provei o sal bendito" (I, 11, 17), quer dizer, fez‑se catecúmeno ou candidato ao batismo. A fé era profunda. Tendo ainda poucos anos e sentindo‑se, de repente fatigado por uma opressão no peito, com grande fé e não menos fervor, pediu que o batizassem. Mas em seguida começou a melhorar e, em conseqüência, não se lhe administrou então o batismo, segundo o costume da época. Pensavam todos, e Mônica a primeira, que muito provavelmente iria perder logo a graça batismal e que o pecado de um batizado é sempre maior. Decidiram pois deixá‑lo para mais tarde depois de passadas as turbulências da adolescência.

Os açoites que Agostinho tanto temia não eram de todo injustificáveis, a julgar pelas suas palavras: "Pecávamos, escrevendo, lendo ou pensando no estudo menos do que nos era pedido. E não era por falta de memória ou de inteligência, que Deus no‑la tinha dado em grau suficiente para aquela idade. A causa era que nós gostávamos de brincar" (I, 9, 15). Agostinho, já bispo, contava as suas travessuras de então: "Pecava eu, Deus meu, desobedecendo às ordens de meus pais e mestres que queiram que eu aprendesse. Se desobedecia, coisa freqüente, não era para fazer algo melhor do que me mandavam, mas sim, por amor à brincadeira" (I, 10, 16). Ansiava por triunfar sempre. Fascinava‑o todo o tipo de contos, sentia‑se cheio de curiosidade e os olhos iam‑lhe atrás de todo o espetáculo. Gostava de tudo menos das letras e que lhas obrigassem a estudar. Muitos anos mais tarde, reconhecerá que com isso lhe proporcionaram um bem imenso. E reconhecerá que quem não agia com retidão era ele ao não estudar senão quando o forçavam. "Porque, diz, o que age contra a sua vontade não age bem apesar de ser bom o que faz" (I, 12, 29). Do seu erro em não querer estudar se servia Deus para castigá‑lo. "Tinha‑o bem merecido eu, menino tão pequeno e tão grande pecador" (id.).

O estudo do grego começava, naquela época, desde os primeiros anos. A Agostinho nunca lhe agradou. Detestava a língua de Homero que lhe amargurou os primeiros anos de escola. Em vez disso, afeiçoou‑se ao latim, não à gramática mas sim à literatura. Porque aprender a ler, escrever ou contar foi para ele menos aborrecido ou enfadonho do que o grego. No entanto não tinha dificuldade em aprender de cor os poetas latinos, especialmente Virgílio. Gozava recitando as aventuras de Eneias e até chorando a morte de Dido, que se suicidou por amor. Grande incoerência, escreverá mais tarde. "Se perguntasse o que seria mais prejudicial para alguém, se esquecer‑se de ler e escrever ou esquecer‑se daquelas fábulas, quem não responderia que o primeiro?" (I, 13, 22).

A inteligência de Agostinho era grande e ele próprio estava convencido disso. Todos afirmavam dele "era uma criança de grandes esperanças" (I, 17, 27). Se alguma coisa roubava aos companheiros era os aplausos. Quase sempre vencedor nos concursos, ele arrebatava todos os aplausos. Tal talento, no entanto, devia ser causa freqüente de muito aborrecimento. Na verdade, o "um e um, dois; dois e dois, quatro" era para ele uma cantilena insuportável.

Já na sua idade madura, o bispo publica candidamente os pecados da meninice. "Entre os meus companheiro quem mais travesso do que eu? Enganava com inúmeras mentiras o pedagogo, os professores, os meus pais. Tudo por amor da brincadeira e pelo gosto de ver espetáculos inúteis e depois imitar o que tinha visto. Fazia também furtos na despensa da casa e da mesa. As vezes pela guloseima; noutras ocasiões para dar qualquer coisa aos rapazes para me deixarem brincar com eles. No jogo, vencido pelo desejo de me salientar, fazia batota. por sua vez nada me era mais insuportável que descobrir outro fazendo a mesma batota que eu tinha feito. Atirava‑lho à cara violentamente. Se pelo contrário me apanhavam a mim e mo censuravam, antes que ceder, preferia enfurecer‑me" (I, 19, 20).

Quem reconhece os seus pecados conhece também os seus valores e agradece‑os a Deus. "Não queria ser enganado, tinha boa memória, ia adquirindo facilidade para falar, gozava da amizade, fugia da dor, da afronta, da ignorância" (I, 20, 31).

Madaura esperava‑o para aí continuar os seu estudos.